simples demais

queria uma coisa simples, muito simples.
porque o amor é simples, mas não é comum encontrá-lo por aí.

queria ser o que fomos um dia, quando pouco se dizia.
quando pouco se fazia questão de entender.

queria paz e sossego, simplicidade e um pouco de poesia,
enquanto você fotografava a vida em silêncio.

quem sabe o tempo nos ajude, assim como um pouco de calma
e tranquilidade. um pouco sem guerra, sem agressão.

um pouco de amor e sexo à flor da pele banhado em saudade.
um pouco de tudo que a gente já sabe pra perder o medo da desilusão.

casa de partir

 

não, eu não estou mais
em nossa casa a chorar.
deixei tudo que pesava
e não dava pra levar.
cama por arrumar,
louça por lavar,
corpo por amar.
e o amor, de grande,
me convenceu a partir.
não, eu não trouxe nada
que pudesse te lembrar
e nem assim consegui
deixar-te para trás.
olha, a chuva vem torrente.
e eu já estou pronta pra saltar.
agora eu já me molhei.
agora é esperar secar.

prato cheio

com esse todo tanto de querer que tenho,
nada mais adianta do amor voltar.
para cada minuto de café e sossego,
tantos infernos você me fez atravessar.
numa balança injusta onde o peso maior é o da culpa
do insucesso de não fazer o amor vingar,
eu fico com o prato cheio da angústia
de saber que peso maior carrego comigo,
no querer refazer o que por dúvida foi desfeito
e sucumbiu na urgência de querer amar.

eu sei o porquê

eu sei que te amo quando sua voz percorre
e me diz que me quer com urgência.
pelo calor de seus lábios quando me aquecem
nas noites quentes em que sinto frio.

eu sei que te amo pelo arrepio que me causa
quando estamos em completo desatino.
pelo silêncio de ternura quando me olha
nessa tanta saudade em dor latente.

eu sei que te amo pelas horas difíceis juntos
quando a distância é o insuportável cotidiano.
por ter a exata noção do que sente,
mesmo que não saiba onde está exatamente.

eu sei que te amo em verdade ímpar
sem plural sem sinônimo sem homônimo.
porque não há beleza maior
do que o seu simples ofegar.

eu sei que te amo porque enfim encontrei
a intensidade que tenho do lado de lá.
porque nessa vida me perdi de mim
para me encontrar em você.

eu sei que te amo porque a entrega incessante
é presente constante, num agora de hoje em diante.
porque passo a vida a dizer que sei que te amo
e agora você sabe o porquê.

flores de mimos

eis a melancolia humana:
lamentar a morte dos vivos.
rolam, na face que não veja,
as lágrimas que correm o risco.

o que se condena com ferro,
em brasa, na pele, o castigo.
em outro peito, acalenta
o amar por tempos banido.

não me coloque em berlinda
por carregá-lo comigo.
a cada passo que dou,
germinam flores de mimos.

assim, em campos cinzentos,
floresço por todo o caminho
com a chaga aberta em aromas
de amor pleno e sozinho.

o farol e o cais

quando o olhar é
luz em noite sombria
e a lembrança
é o claro existir.
quando o que sente
é saudade da vida
e o riso é a música
mais linda do dia.
quando crer é
o único posto a assumir
e estar lado a lado
é tudo para se pensar.
quando a alegria
é estado em comum
e o despertar
é para fazê-lo feliz.
quando nada mais
é preciso jurar
e as palavras
jamais são iguais.
quando o amanhã é
o melhor de nós dois
e o amor é o farol
e o cais.

poeira estelar

peguei papel e giz de cor
pra desenhar no mural
o destino que queremos ter.
você falou da falta que faz o calor
do sol das seis e do nosso amar
com poros liberando o vapor.
tudo que sou capaz de fazer
para estar com você são milagres
que você nunca, nunca ouviu dizer.
buscar estrelas e anéis planetários
qualquer poetinha faz. Eu sou humana!
sou da rua bem longe da sua.
o que são algumas milhas de quadras
para quem arremessa no céu
constelações de estrelas do mar?
o santo move montanhas. Eu sou humana!
deslizo oceanos e arrasto países
com pranchas continentais.
eu laço dragões de luas perdidas
galáxias que nem chegaram a avistar.
tudo tão perto à minha medida…
eu sou humana!
coisa mundana essa de querer explicar
a mudança da trilha do vento
e a onda que vem arrastar…
tudo que foge aos olhos está pendurado
no cristal colorido e inquebrável
no teto da casa em que vamos morar
tudo que foge aos olhos está desenhado
com um sopro de poeira estelar
que faz você lumiar.