lembrete de geladeira

passando pra dizer saudade
e algumas verdades que aprendi
depois de passar por esse lugar
onde você está
você só precisava de uma rua
pra poder passar
de repente se depara com ela
e vê que é só caminhar
o primeiro passo, de olhos fechados
ainda com aflição do que pode ser
o calor sob os pés descalços
aquela mão que se solta da sua
apresenta e obriga o equilíbrio
aquela coisa que te põe no eixo
aquela coisa indispensável
mas só para o caminhar
todos os próximos passos
dependem só de soltar da mão
e girar e tremular com o vento
abrir os olhos e ver que onde você andava
não era rua, era mundo
e o calor não era asfalto, era guia
que te prendia ao poço fundo
então não ande, voe
porque a estrada é feita
de chumaços de algodão
tire a mochila das costas
nela não há nada que sirva
no lugar que te espera
degraus acima da lama
limpe os pés na entrada
deixe o resto para trás
se da vida não se leva nada
venha com tudo que é

sem teoria

tem dias que me dá preguiça
de ver sempre a mesma coisa
tem dias que a preguiça
toma forma de pavor
tem dias que só fora eu encontro a saída
tem dias que lá fora é furacão
todo dia uma corrida atrás do pão
quando o sim não mostra cara
você tem que engolir o não
todo dia o que sabem é o que se tem
quando o que se é já não faz questão
saltar para amenidades
é aceitar o lado morno da razão
você tem que acordar pra inspirar
uma legião de gente perdida
você tem que levantar a cabeça
só porque faz cara de decidida
quando ninguém vê que o que você é
não é aquilo que faz todos os dias
você é aquilo que sonha escondida
em menos tempo do que gostaria
você não é aquilo que come
nem o que cospe no prato de cada dia
você é aquilo que corre por dentro
e nem chega perto da teoria

#contoacontagotas #5

Ela, que passara a infância ouvindo sobre a inexistência do amor, certo dia descobriu a verdade. Ao tirar o véu, que dava a tudo a cor cinza, e beijá-lo como se entrasse pela boca e nariz, viu as cores mais vibrantes. Enquanto isso, o universo tentava, miseravelmente, passar por entre os dois corpos. Quando acabou, sofreu. Após anos, perguntaram a ela sobre o amor. A ela, que cresceu incrédula e aprendeu. Com o olhar pregado no horizonte, respondeu: “Amar é o maior ato de auto-flagelação que existe. Amar é se extirpar pelo outro. Extirpa-se ações ideias comportamentos amigos um copo de vinho e até o amor próprio. Amar é morrer um pouco por dia”. E morreu.

#contoacontagotas #4

Abri os olhos e levantei a cabeça. Dei de cara com as duas me fitando no escuro, como quem espia um acidente. Como quem vela um morto. Desisti de dormir depois da cena. Levantei fui ao banheiro fiz xixi e voltei. Uma já tinha saído com a feição decepcionada de quem queria enterrar alguém, mas não tinha terra suficiente. A outra ficou. De novo, acomodei a cabeça no travesseiro. Fora os rins, um peso a mais: ela, desenganada, novamente se debruçou sobre meu peito. Eu dormi.

#contoacontagotas #3

A Páscoa de novo. Você já me deu ovo de chocolate flores bombons. Já me cobriu com rosas em funeral antecipado e nem chorou. Já me encheu de alegrias ciúmes iras aflições. Já me deu amor tecnologias e puxões. Tem horas em que eu só queria você cantando uma música bem brega pra eu dormir. – What a lovely way to die.

valsa

o tempo consome
os dias passados
em vãos devaneios
em colchões alheios
em vazias presenças
o tempo que some

o tempo escolhe
quem fica ao seu lado
a paixão recolhida
o beijo molhado
o adeus da partida
o tempo encolhe

o tempo dizima
o que traz pouco a pouco
o orgulho ferido
o amor acabado
o desejo e a cobiça
o tempo de cima

o tempo devolve
o que toma da vida
o brilho nos olhos
o sorriso de canto
a eterna malícia
o tempo envolve

Valsa é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

a passagem

que você tenha sonhos lindos,
que de preferência sejam comigo.
que você viva eternamente
em essência e luz que emana.
que seja doce sempre
como quando você me ama.
que meu amor alcance
a grandeza de seu espírito.
que nunca se esqueça
que eu não resisto
nem a você, nem à vida
que temos para sempre juntos em alma,
em calor, em amor, em respeito,
em dor da saudade no meio do peito.
que você saiba que sou sua
como fui desde o primeiro dia
quando vi a face do amor
enquanto você me sorria.