soubesse

soubesse que a espera pode levar dias
tantos dias quentes, tantas noites frias
e pela frente ainda mais vidas…

soubesse que a vida não é tão triste
em sua beleza cotidiana
de uma graça quase cinza

que o tempo não tem relógio no pulso
e suas horas mortas matam de leve
mas que as dores são agudas

soubesse que eu e você não seria assim tão fácil
carregava esses anos nos braços
e levava até o fim para o nosso começo.

capacho dos caprichos

o amor nos faz capacho
de seus caprichos.
esse amor que rima com flor
também rima com dor e bicho.
um amor que vai embora
e nem para trás olha.
um amor que adora e chateia,
que bambeia as pernas
nas cordas das veias.
o amor rubro paixão e calor
que derruba das teias.
esse amor sem vergonha
errado entre padre e freira
que se amam sob assoalhos
da vida alheia.

o amor nos prostra diante de si
humilde e feliz.
depois vira a casaca
de um ser distante,
petulante, arrogante
e os antes que não voltam
só perduram na mente de quem diz
“bom dia, até mais,
te pego às seis
para cedo ir dormir”.

mas quem dorme com um barulho desses?
de um amor gritante,
vermelho feito sangue,
amor manhoso, escandaloso
que esperneia carente?
não, o amor não dorme
e nem deixa cochilar.
sai do peito,
recocheteia na parede do quarto
e vai janela afora
encontrar a outra parte,
talvez dormente em alguma cama pronta
para receber o amor da gente.