o ser e suas divisas

certa vez, disseram para eu falar menos palavrão.
aquilo tornava grotesca minha figura delicada.

disseram para eu me emocionar menos com o trabalho.
aquilo truncaria a produção.

também disseram para eu controlar meus ímpetos.
que, uma hora ou outra, não seriam mais aceitos pelos demais.

já me mandaram falar mais baixo, rir mais baixo, chorar mais baixo.
porque, claro, o mundo não precisa saber pelo que estou passando.

conselhos recebi aos montes.
pense menos, faça mais.
pense mais, sinta menos.

e depois de ouvir tanta coisa, me pergunto:
em que mundo poderei viver em verdade?
de verdade, em que mundo serei eu?
que lugar abrigaria o que abrigo em mim?

ser é território.
mortos e feridos em avanços de fronteiras.

quanto de seu território já perdeu?
quanto perdi eu?
já deixou de ser quem é para ser um não-eu?

encontro com o agora

hoje eu vi o inimigo.
travei com ele uma luta
bem na frente do espelho.
me deixou suspensa no ar
com um golpe em apneia.
hoje eu cheguei lá
onde a paisagem é sem cor
e não há parede para se encostar
e nem luz para se ver.
um labirinto sem saída
com rosas murchas
quase sem vida.

hoje eu vi
que a distância é doída
que suspiros se apagam
com o tempo, amores também vão.
hoje eu não quis mais nada.
meu corpo, pendurei no cabide.
uma roupa usada
que esfregaram ao limite.
uma trama frouxa
uma trouxa desajeitada.

hoje eu escrevi à mão
com caneta e folha nova
nova em folha, acredite.