#contoacontagotas #8

Se cuidar de si mesmo fosse fácil, eu não estaria nessa sala de espera, esperando sei lá o quê. A secretária disse que ele fora ao banco, mas logo volta. Enquanto isso, caço teias de aranhas e formigas com migalhas de bolachas-água-e-sal nas costas. Também caço alguns centímetros de canelas com meias finas. Penso que se o que me resta de vida for inversamente proporcional ao que vou pagar pela consulta, tô fudido. Mas a paisagem certamente faz parte de consulta. Lá vem ele. “Olá, doutor. Não, sem problemas, todos temos nossas contas a acertar. Sim, ela deu pra mim e estava muito bom”… O café.

#contoacontagotas #5

Ela, que passara a infância ouvindo sobre a inexistência do amor, certo dia descobriu a verdade. Ao tirar o véu, que dava a tudo a cor cinza, e beijá-lo como se entrasse pela boca e nariz, viu as cores mais vibrantes. Enquanto isso, o universo tentava, miseravelmente, passar por entre os dois corpos. Quando acabou, sofreu. Após anos, perguntaram a ela sobre o amor. A ela, que cresceu incrédula e aprendeu. Com o olhar pregado no horizonte, respondeu: “Amar é o maior ato de auto-flagelação que existe. Amar é se extirpar pelo outro. Extirpa-se ações ideias comportamentos amigos um copo de vinho e até o amor próprio. Amar é morrer um pouco por dia”. E morreu.

#contoacontagotas #4

Abri os olhos e levantei a cabeça. Dei de cara com as duas me fitando no escuro, como quem espia um acidente. Como quem vela um morto. Desisti de dormir depois da cena. Levantei fui ao banheiro fiz xixi e voltei. Uma já tinha saído com a feição decepcionada de quem queria enterrar alguém, mas não tinha terra suficiente. A outra ficou. De novo, acomodei a cabeça no travesseiro. Fora os rins, um peso a mais: ela, desenganada, novamente se debruçou sobre meu peito. Eu dormi.

#contoacontagotas #3

A Páscoa de novo. Você já me deu ovo de chocolate flores bombons. Já me cobriu com rosas em funeral antecipado e nem chorou. Já me encheu de alegrias ciúmes iras aflições. Já me deu amor tecnologias e puxões. Tem horas em que eu só queria você cantando uma música bem brega pra eu dormir. – What a lovely way to die.