não há amar sozinho

amor,
não há amar sozinho.
cada poro do corpo é alma
na inquietude do mundo, e cala
no mergulho dos olhos. fala
de se entregar não com coragem
mas sem sequer rastro de medo
e fazer cada minuto
o latejar do tempo.

amar é confundir os cheiros,
impregnar-se em desejo
e nele despertar a centelha.
amar é se fundir no beijo.
é um ser pleno enquanto dois.
é aguçar o que pulsa, instinto
no quase extinto
amor,
não há amar sozinho.

*Não há amar sozinho é música de Mauricio Nogueira e letra de Lívia Gusmão

quero

eu quero ao menos que saiba
de tudo que sinto e me escapa
à rotina, à palavra e ao dia
mas não à superfície e à alma.

do sentido que me mostrou e me deu
de presente e colheu em semente
da saliva que ferve e irriga
nossos lábios e olhos e ventre.

quero que reconheça em meu corpo
todas as matizes do mais sincero,
escancarado e descarado desejo,
de quando te vejo depois que te espero.

quero adorar sob medida
quem quer amar por toda a vida
com a incoerência adolescente,
da primeira vista ao inédito de todo dia.

quero que sinta com perfeição
os movimentos que o levam perplexo
aos acidentes por onde caminha,
até pulsar sincopado em excesso.

e finalmente perceba o espaço
que ocupa único constante e vasto
nas entranhas do mundo que sou
sua essência de amor em frasco.

homem de gelo

quando o dia chamar você
pra caminhar na areia cinza
e seus pés na água molhar,
voa pra lá, não diga não
que o sol te espera no mar.

os carros correm loucos demais
homens com pressa de chegar
não é pra você este lugar.
esquece tudo, nem pare pra ver
que o sol está a te esperar.

o asfalto quente não vai queimar
seus pés descalços sem calejar.
por apostar, você vai liquefazer.
suas têmporas, sim, vão gotejar.
seus fluidos vão obedecer.

quando nessa água se misturar,
não tenha medo de se encontrar.
não há limite entre o mar e você.
só o calor vai te mostrar
as razões que há pra derreter.

a sete chaves

quem vai me pôr os limites
da boca até os ouvidos?
quem vai me fazer parar
encher seu copo de vinho
barato, vidro trincado
com esse amor divino?
barato, vidro trincado
com esse amor excessivo?

não interessa se o vento
sopra a favor do que eu sinto
bastava que me dissesse
que é que eu preciso
pra comprovar que reduto
não passa de um detalhe
quando o que se mantém vivo
é tudo mesmo o que vale.

quem vai me pôr na parede
pra arrancar meus segredos,
que a sete chaves eu guardo
o antídoto desse veneno?
esse amargo que insiste em
amordaçar seus instintos
e te atrofia os músculos
paralisado e faminto.

não diga que já é tarde
pra ter essa hora comigo.
o tempo em nada tem parte
onde fui posta em castigo.
bastava que eu saísse
daqui a qualquer momento,
e te encontrasse nas fendas
que esculpimos no tempo.

* A sete chaves é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

todo amor tem fim

todo amor acaba
quando o mel da lua derrama
quando os panos quentes
formam lágrimas na cama.

todo amor se finda
quando a lua de mel termina
quando olha pro outro lado
a cada virar da esquina.

todo amor tem fim
quando fica atrás
de um sol insone.

todo amor tem fim
vai morrer em mim
quando a lua cheia some.

* Todo amor tem fim é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

vamos amor

amor, vamos morrer de velhos
de amar esse cotidiano insano
vamos correr feitos crianças
nos corredores dos templos calados
de mãos dadas e olhos fechados
amor, vamos viver o tempo
que ganhamos de brinde apesar da hora
que queixamos o mapa desdobrado
que confunde nossos itinerários
que queremos manter em comunhão
amor, vem pro nosso mundo sem demora
não vivo nem um segundo sem pensar
na eternidade dos instantes com você
que acabam antes de amanhecer
amor, vamos sumir por esse caminho
esconder debaixo da cama nossos desvios
as sacanagens que cometemos em segredo
sem um pingo de vergonha e silêncio
às favas os vizinhos emprestados
amor, vamos fazer tudo de novo
hoje amanhã e nos próximos anos
e lembremos de nós nas próximas vidas
como quem tem déjà vu a cada esquina
amor, vamos esquecer o passado
que é caminho de atraso de vida
o destino vem pela porta da entrada
vem de frente, viagem sem escala
eu pra você, você em mim essa loucura
essa euforia que se chama liberdade
do amor desmedido sem prazo de validade
amor, vamos morrer de amar em vida

mais uma vez

me dê um tempo a mais
para te pegar pela mão e andar
pelos campos abertos da redenção
pelas flores caídas no chão
nesse pouco frio que faz e achar
que você é minha e sempre será
minha voz estancada ao dizer
sobre as brumas dos lagos, eu sei
te quero mais uma vez
e mais uma vez
e mais uma vez

me dê um tempo a mais
para olhar pra você e chorar
pelo excesso de calma e aflição
pela hora errada de dizer não
quando podia apenas esperar
a fração de segundo pra te beijar
e sentir que não há mais a fazer
senão esperar florescer, eu sei
te quero mais uma vez
e mais uma vez
e mais uma vez

* Mais uma vez é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

valsa

o tempo consome
os dias passados
em vãos devaneios
em colchões alheios
em vazias presenças
o tempo que some

o tempo escolhe
quem fica ao seu lado
a paixão recolhida
o beijo molhado
o adeus da partida
o tempo encolhe

o tempo dizima
o que traz pouco a pouco
o orgulho ferido
o amor acabado
o desejo e a cobiça
o tempo de cima

o tempo devolve
o que toma da vida
o brilho nos olhos
o sorriso de canto
a eterna malícia
o tempo envolve

Valsa é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão