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O luto é luta

A hora da tristeza é sempre a hora da verdade. É quando se reconhece as atitudes das pessoas, os amigos, os inimigos silenciosos… É quando se surpreende positiva ou negativamente com o outro.

A hora da tristeza é a hora das angústias. Da cobrança alheia para que se seja forte. Da piada para ressuscitar o espírito risonho do outro.

A hora da tristeza é luto. E não importa o que se pensa ou o que se tenha como ideologia de vida. Estar em luto é uma luta solitária.

O que torna a vida especial

Ultimamente, tem-se falado muito em empatia. Empatia por pobres, mulheres, negros, pardos, gays, gordos, ou gente sem definição. Não, esse não é um post contra nenhum deles. Mas, é um post sobre como a empatia pode ser seletiva.

Sou mulher, branca, de olhos azuis e não sou pobre. Logo, sou uma privilegiada na maioria dos aspectos. Sim, eu concordo. Mas, isso é o que você vê hoje. Não, eu não sofri branqueamento da pele, nem uso lentes de contato.

Já fui pobre. Não, nunca passei fome, gente, para. Minha mãe cuidou muito para que isso não acontecesse. Mas, sou filha de uma mulher também, certo? Que não teve mãe, inclusive. Uma mulher que foi mãe solteira – mesmo que ser mãe não seja estado civil, isso pesou sobre ela. Sobre nós.

Lembro-me perfeitamente do dia em que fomos expulsas da casa do meu avô. O meu AMADO avô, que soube dirimir sua culpa por todos os anos seguintes, até sua morte aos 80 anos. Fomos expulsas porque minha mãe era mãe solteira e namorava o meu pai, o homem que me criou desde pequena. O meu pai.

Pois é, minha mãe é e sempre foi uma mulher admirável. Ela é e sempre foi forte, mesmo quando não tinha mais forças para lutar contra todos os fantasmas que povoavam sua mente – por Deus, ela só procurava emanar amor.

Pelos anos iniciais de minha vida, ela me criou sozinha. Alguns com a ajuda do meu avô, até que ele tomasse a decisão de nos mandar embora. Depois, foi carreira solo mesmo por algum tempo. Nós moramos em duas casas só nós duas. A primeira era um casebre de dois cômodos num cortiço com banheiro compartilhado com outros moradores que, bem da verdade, não me lembro de nenhum. Eu era bem pequena, devia ter uns 4 anos. Lá, eu me lembro que ela já namorava meu pai. Ele nos visitava às vezes. Chegou até a fazer uma laranjada com sal por engano rs. Aliás, não me esqueço dessa laranjada salgada! Mas também me lembro do cachorro de pelúcia que ganhei dele… acho que foi o meu primeiro bicho de pelúcia. Eu a-do-ra-va aquele cachorro: eu sentia que ele parecia de verdade, embora sua aparência fosse daqueles brinquedos comprados em feira hoje em dia.

Depois fomos para uma casa um pouco maior. Já não era quarto-cozinha com banheiro fora. Era uma casa, uma casona! Tinha um quarto, uma sala, uma cozinha e um banheiro DENTRO de casa. Imagina? Eu achava o máximo, e ainda tinha um pé de figo no quintal, que meu avô colhia para fazer xarope pra mim, que vivia doente da garganta.

O resto foi luta. Uma luta boa, de crescimento, travada pelos meus pais. Foi quando meu pai me deu seu sobrenome, que carrego com muito orgulho até hoje e que JAMAIS substituiria pelo sobrenome de homem algum. Eles venceram na vida, gente. Eles vivem bem, num belo condomínio de casas aqui na cidade. Até chegar aí, muitas dificuldades, desemprego, idas e vindas em empresas e muito, muito trabalho, economia do lar e toda uma disciplina que não se ouve mais falar hoje em dia.

Sim, estudei apenas em escolas particulares em todos os anos, mesmo com o enfrentamento deles a toda dificuldade que surgiu. O que eu fiz pra merecer isso? Não sei, mas fui privilegiada! Eu só tinha que estar entre os 5 melhores da classe para manter a bolsa de estudo desde os 5 anos de idade. E, para contribuir um pouco com minha parcela, fazer alguns serviços de casa enquanto era adolescente. Havia uma jornada estipulada pela minha mãe:

  • Segunda a quinta: lavar, secar e guardar a louça; varrer sala, cozinha, quintal e garagem;
  • Terça: passar a roupa, incluindo toalhas de mesa e de banho, calcinhas e cuecas;
  • Sexta: lavar, secar e guardar a louça e limpar o sobrado.

Fala sério, isso não era nada. E isso me preparou para a vida. Tive minhas próprias dificuldades em paralelo às deles, mas eu me virei. Eu me viro até hoje com elas. Sabe por quê? Porque dificuldade todo mundo encara. Todos nós.

Conviver com pessoas de poder aquisitivo MUITO maior do que o da minha família me deu a régua que eu precisava para não desejar o que era do outro. Eu entendi logo o que cabia e o que não cabia na minha vida, e também o que eu não queria apesar de todo mundo querer. Não, eu não sinto vontade de ir pra Disney até hoje rs… sempre achei meio besta – o que não significa que eu julgue quem vai ou deseja ir; é só a minha opinião.

E eu soube desde os 10 anos que queria passar o resto da minha vida escrevendo. Foi quando eu ganhei minha máquina de escrever (tenho até hoje). Por isso, estou aqui hoje, escrevendo para você, mas é só para dizer uma coisa que eu acho importante:

Minha vida não é mais especial do que a sua. Nem mais difícil. Nem menos difícil. Minha vida não me fez uma pessoa especial.

O que isso tem a ver com empatia seletiva? Ora ora, há quem só enxergue a minha vida de hoje. Ainda há os que pensam que fui uma filhinha de papai (!!!), que a vida foi fácil pra mim e que meus pais me estenderam as mãos todas as vezes que puderam porque a vida foi fácil pra gente. Essa é a empatia seletiva, a que só vê um recorte da vida de alguém. É por isso que prefiro conhecer as pessoas um pouco mais a fundo. Sei que estamos cobertos por diversas camadas de proteção e história, como uma cebola. Conheço pessoas que têm uma história bem difícil e que superaram. Pessoas que viveram seus dias, encarando seus fantasmas, e venceram. Mas que, como eu, hoje passam uma imagem para a qual as pessoas apontam e dizem “filhinho de papai”!

Isso me faz rir, sabia? Esse comentário de gente rasa. Quando alguém diz que sou uma privilegiada, eu concordo. Sou MUITO privilegiada mesmo. Eu sou fruto das decisões que meus pais tomaram, e mais: sou fruto do que eu decidi fazer com as decisões deles. Não lamento, minha vida é linda. Minha história me dá orgulho. Nem por isso, sou melhor do que ninguém. Nem pior. E já que cada um tem a sua história, que saiba respeitá-la e respeitar a existência do outro. Isso, sim, torna a vida especial.

A era do faz-de-conta

Há quem faça da própria vida um faz-de-conta. Essas pessoas fazem de conta desde a mais ínfima das tarefas até mesmo as grandes coisas. Quer ver só? Tem gente que faz de conta que é amável, empático e politizado. Há os que fazem de conta que são responsáveis, que trabalham demais e que, uau, cuidam de toda uma rotina composta por jornadas duplas, triplas… Pessoas que fazem de conta que se preocupam com os seus, que sentem desejo e até que amam. Continue lendo