ela lhe cai bem

a morte não perdoa os fracos de fé,
mas não isenta os que trabalham também.
a morte zombou da sua cara na sinagoga
e pegou sua alma como refém.
a morte colocou sua reputação em xeque
quando mostrou que você é fraco
e que ela é a reencarnação do bem.
agora me diz:
você escolheu a morte porque
ela é boa demais para si
ou porque ela lhe cai bem?

rubra revolta

em protesto ao dia que não chegou, hoje eu passei batom.

era um daqueles dias esperados. daqueles que se espera com certo desespero. o dia não chegou e eu, em protesto, assumi o vermelho. não gosto da cor da minha boca porque é rubra demais. o inferno na cara. hoje resolvi que não disfarçaria. sangrando estamos, eu e ela.

pobres famintos

pobres famintos
que subestimam migalhas
e nem sabem do banquete,
que nunca viram restos,
da fartura, nem cheiro sentem.

pobres famintos
só veem sombras e sobras
onde a fogueira acende;
cuja maior dor não é fome,
mas a cegueira latente.

pobres famintos
em trapos rotos de seda
repousam corpos e traumas
e esperam o pão e a esmola.
pobres famintos morrem de alma.

casa de partir

 

não, eu não estou mais
em nossa casa a chorar.
deixei tudo que pesava
e não dava pra levar.
cama por arrumar,
louça por lavar,
corpo por amar.
e o amor, de grande,
me convenceu a partir.
não, eu não trouxe nada
que pudesse te lembrar
e nem assim consegui
deixar-te para trás.
olha, a chuva vem torrente.
e eu já estou pronta pra saltar.
agora eu já me molhei.
agora é esperar secar.

fantasma

de todas as partes do meu corpo,
você gostava mais do meu estômago.
dizia que ele era forte
por conta da vida.
desde o último encontro,
sinto sua falta,
mas sinto aqui dentro
um espaço oco.
você levou embora meu estômago.
você levou justo ele,
que suportava minha dor.
disse que precisava de um reforço.
eu concordei.
depois disso,
me sobraram as dores
da ausência.
e agora já não sei
se a dor que sinto é mesmo minha,
ou se ela é o fantasma da sua.