Poeminhas

as horas

paciência sossego e lençol
as horas insistem em me tirar
e riem às custas da saudade
de você que penso em matar

e quando eu só penso em te ver
as horas derretem na parede
fazem hora nas minhas viagens
esticadas em minha rede

quando te encontro e reconheço
na nossa cama, horizonte e calma
pares de beijos em câmera lenta
e a liberdade refém da alma

um passo a frente por um minuto
sessenta vidas pra ter você
um passo a frente por um relógio
de horas sem pernas para correr

passam em branco pelos meus dias
horas que tenho pra não te ter
o relógio anda, mas não adianta
tiro os ponteiros pra gente não ver

o ser e suas divisas

certa vez, disseram para eu falar menos palavrão.
aquilo tornava grotesca minha figura delicada.

disseram para eu me emocionar menos com o trabalho.
aquilo truncaria a produção.

também disseram para eu controlar meus ímpetos.
que, uma hora ou outra, não seriam mais aceitos pelos demais.

já me mandaram falar mais baixo, rir mais baixo, chorar mais baixo.
porque, claro, o mundo não precisa saber pelo que estou passando.

conselhos recebi aos montes.
pense menos, faça mais.
pense mais, sinta menos.

e depois de ouvir tanta coisa, me pergunto:
em que mundo poderei viver em verdade?
de verdade, em que mundo serei eu?
que lugar abrigaria o que abrigo em mim?

ser é território.
mortos e feridos em avanços de fronteiras.

quanto de seu território já perdeu?
quanto perdi eu?
já deixou de ser quem é para ser um não-eu?

tão você

porque sou tão pequena em compreensão.
porque sou tão grande em aparição.
porque sou tão crente em gratidão.
porque sou tão inclinada à incorreção.
porque sou tão vulnerável a sua opinião.
porque sou tão contrária à desconstrução.
porque sou tão faminta de aceitação.
porque sou tão carente de adoção.
porque sou tão suave a querer sua admiração.
porque sou tão pesada a provocar sua irritação.
porque sou tão eu a te provocar lesão.
porque sou tão você em vísceras e coração.

* Tão você é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

o tempo das coisas

qual é o tempo da morte?
por que ela não se divide
em mil partes na vida
e nos coloca os limites?

por que o tempo condena
meu tempo de acolhida
do aprendizado constante?
por que me zomba a ferida?

qual é o tempo de vida
que nós teremos ainda?
por quantos dias ficamos
à parte em tantas brigas?

por que não deixa que eu viva
nesse planeta esquecido?
se houvesse vida na terra
ninguém teria partido.

qual é o tempo do amor?
por quantas horas insiste?
em que diálogo nasce?
com quais palavras desiste?

por que não vê que é hora
de acordar para a vida?
por que não vê que o amor
não é entrada, é saída?

qual é o tempo do erro?
por quanto tempo ele vive?
qual é a hora em que morre?
por quantas vezes persiste?

por que as barras de ferro
para calar os detidos?
o ar respira entre eles
suspiro livre arbítrio.

as pétalas

eu quero tanto ir,
mas tanto!
buscar o que deixei cair
no seu colo e que cuidou
aos prantos.
eu quero tanto voltar
ser parte
dessa paisagem ímpar.
do sol que nasce e parte
em obra-prima.
das matas que brotam
na periferia
de cara pro mar,
a grandiosa poesia.

ah mas eu quero tanto
me revolucionar.

eu quero tanto que se eu voltar
é bem capaz de não saber
do seu colo e do que deixei cair
pra depois resgatar.
a beleza é tanta
quanto a vontade de te ver.
de sentir essa brisa que cola
sorvida na pele que sua
as bromélias do jardim.
do som dos bambus ao vento
dando ritmo ao movimento
e som ao nosso festim.

eu quero tanto ir
que nem cheguei a sair.

o pão nosso de todo dia

o que mata não é seu humor
o que me mata é o seu amor
pior pra mim, melhor pra você
o que eu preciso todo dia
meu escapulário divino
meu santo, meu demônio
herege e puro ser

o que mata não é querer
o que mata é não te ter
porque em mim está, é fato
o suspiro ao acordar
espreguiçar pra adormecer
desejo de matar
delírio de morrer

o que mata não é amar
o que me mata é o não você
o que te sobra na pele
o que deixei nas entranhas
da sua alma encruzilhada
entre o pão nosso de todo dia
e a fome que te faz viver

* O pão nosso de todo dia é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

blues de passagem

você passa seu blues
inviesado nas pernas
das morenas e louras
de portas abertas

eu viro as costas
pra não ver chegar
você, sua cara blasé
e seu ar de star

você pegou meu blues
nele foi se perder
ele é blues de amargar
é um blues de doer

o seu tempo acabou
quis cavar com colher
a mina que escondo
dentro dessa mulher

você pegou meu blues
e deixou escapar
você deixou meu blue
para o tempo passar

meu blues é passagem
pra onde você não está
meu blues ‘tá de passagem
pra onde você não quer chegar

todo amor tem fim

todo amor acaba
quando o mel da lua derrama
quando os panos quentes
formam lágrimas na cama.

todo amor se finda
quando a lua de mel termina
quando olha pro outro lado
a cada virar da esquina.

todo amor tem fim
quando fica atrás
de um sol insone.

todo amor tem fim
vai morrer em mim
quando a lua cheia some.

* Todo amor tem fim é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

velas

de aromas inconfundíveis
acendo essa vela branca
tudo contemplação para mim
seus defeitos suas manchas

essa vela pinga gota a gota
de sua cera em meu lençol
e a fumaça entra pelo nariz
faz seu perfume, meu anzol

esse ar de formas infindas
que me pegam pela cintura
esse gosto de menta que dá
ao oxigênio que quero tragar

sua luz mostrando contornos
do suor que se equilibra
entre os cílios abrasados
do calor que sua vela dá

e esse cheiro de canela
que às coxas quero prender
dessa vela rubra intensa
assopro a chama para ver

chamo balanço desfaço
derreto na ponta dos dedos
essa vela de perfume raro
de fogo pra queimar segredos

essa vela incendeia meu quarto
explodindo janelas e medos
pra recriar um novo barco
e queimar minhas velas ao vento

e deixar molhar o seu rosto
como chuva represada na mina
e deixar derreter a seu gosto
minhas gotas de lamparina

a última ponta de estrela

de um insuportável azul
não dá nem gosto de ver.
tão vazio de suas formas,
as nuvens foram brincar
no quintal de outro lugar.

no meu dia jogam véus,
os flocos dos meus olhos.
derramam suas águas
pelos poros de quem sabe
das nuvens e do amar.

imóveis, as que ficaram.
pura inveja do seu olhar,
da última ponta de estrela,
da espuma de seu mar,
do nosso insuperável amar.