Poeminhas

#contoacontagotas #5

Ela, que passara a infância ouvindo sobre a inexistência do amor, certo dia descobriu a verdade. Ao tirar o véu, que dava a tudo a cor cinza, e beijá-lo como se entrasse pela boca e nariz, viu as cores mais vibrantes. Enquanto isso, o universo tentava, miseravelmente, passar por entre os dois corpos. Quando acabou, sofreu. Após anos, perguntaram a ela sobre o amor. A ela, que cresceu incrédula e aprendeu. Com o olhar pregado no horizonte, respondeu: “Amar é o maior ato de auto-flagelação que existe. Amar é se extirpar pelo outro. Extirpa-se ações ideias comportamentos amigos um copo de vinho e até o amor próprio. Amar é morrer um pouco por dia”. E morreu.

#contoacontagotas #4

Abri os olhos e levantei a cabeça. Dei de cara com as duas me fitando no escuro, como quem espia um acidente. Como quem vela um morto. Desisti de dormir depois da cena. Levantei fui ao banheiro fiz xixi e voltei. Uma já tinha saído com a feição decepcionada de quem queria enterrar alguém, mas não tinha terra suficiente. A outra ficou. De novo, acomodei a cabeça no travesseiro. Fora os rins, um peso a mais: ela, desenganada, novamente se debruçou sobre meu peito. Eu dormi.

#contoacontagotas #3

A Páscoa de novo. Você já me deu ovo de chocolate flores bombons. Já me cobriu com rosas em funeral antecipado e nem chorou. Já me encheu de alegrias ciúmes iras aflições. Já me deu amor tecnologias e puxões. Tem horas em que eu só queria você cantando uma música bem brega pra eu dormir. – What a lovely way to die.

#contoacontagotas #2

Ela crava as unhas na minha pele. Vejo as pontas afiadas formando pequenos arcos que terminam em esfoliações. Olho em seus olhos. Ela, poderosa, nem pensa em dar trégua. Eu, feito estátua, aguento até que adormeçam. Ela e meu braço.

#contoacontagotas #1

Acordei sentindo um pulsar em minha nuca. Era meu pulso. Dormi sobre o braço e descobri que meu corpo me desperta. Descobri um despertador natural: não precisa de pilha e nem bateria. Fiquei feliz porque sempre que eu quiser mais cinco minutos na cama, é só mentalizar: pulso, me acorde daqui cinco minutos. Esbocei um sorriso e fechei os olhos, sonhando com os cinco minutos. Logo me dei conta de que não é assim tão simples. E se meu pulso parar? Quem me acorda?

compulsão

abro fecho janela
olho rua de luz
verde vermelha amarela
abro fecho abro fecho
procuro você
não fala não vem
clamo calma
abro fecho janela
banho minutos
água açúcar
tempo não passa
água salgando
no canto da boca
você nada

valsa

o tempo consome
os dias passados
em vãos devaneios
em colchões alheios
em vazias presenças
o tempo que some

o tempo escolhe
quem fica ao seu lado
a paixão recolhida
o beijo molhado
o adeus da partida
o tempo encolhe

o tempo dizima
o que traz pouco a pouco
o orgulho ferido
o amor acabado
o desejo e a cobiça
o tempo de cima

o tempo devolve
o que toma da vida
o brilho nos olhos
o sorriso de canto
a eterna malícia
o tempo envolve

Valsa é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

somente quando se ama

somente quando se ama
é que se sabe que ser um
não tem a ver com matemática
mas com a graça da vida

se deixa levar pela crença
de que nada acaba um dia
cada manhã um recomeço
cada abraço energia

somente quando se ama
é que se conhece limites
e reconhece fronteiras
entre a alma, o beijo e a cama

depressa aos poucos

se morre um pouco por dia
quase não sente o corpo cair
mas ao morrer tudo de uma vez
impossível não sentir o chão comer
as mãos os pés os planos a fé
não interessa com quantas letras
escrevam o adeus no jazigo
melhor seria ouvir em vida
todos os dias ao pé do ouvido

a troca da trouxa

a trouxa de roupa
a trouxa sem roupa
a trouxa despida
que acha que é única
quando vê pela janela
a fila

viúva

cá cheia minha vida
como infrutescência
como gotas de uva

caio
dormente sonho
como nova cheia lua

faço bagunço sonhos
a noite é minha viúva
faço bagunço sonhos
beijo cachos de chuva

Viúva é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

novidade

fui olhar teus retratos
ver tuas mensagens passadas
e me matar de saudade

fui querer musicar
teus passos até tua casa
e achar que sotaque é melodia da fala

fui pensar que podia
ter teu querer um dia
só por querer te ter

fui sonhar alto
cair dos balões de ar
que prendias entre os dedos
e soltaste pra eu voar

Novidade é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

cotidiamamos

eu amo e ponto.
mas não é só isso:
você, meus versos
nossas vidas, os laços.
enfeites do cotidiano.

lívida

eu sou lívia gusmão.
às vezes, miss blue.
ainda não sei
quem é a maior parte de mim,
mas existo em fragmentos,
palavras e silêncio.
escrevo e ponto.
porque as letras brotam
em verso letra e prosa.
não sou o vinho que resta,
mas o que transborda da taça.
toma-me com calma até a metade.
mata num só gole a outra parte.

a mulher do jangadeiro

vem, entra nessa jangada
navega comigo por esse mar
vem, está tudo certo
nossa viagem já vai começar

vem, entra nessa casa
que tem janela voltada pro mar
vem, que a noite é enluarada
e os seus olhos já vão mergulhar

nos meus pensamentos vastos
dançar comigo sobre as águas do mar
cantar suas canções em meu ouvido
deixar meu corpo no seu flutuar

vem deitar em meus braços
quando meu corpo do seu se apossar
vem derrubar fronteiras
que a vida começa
de frente pro mar

A mulher do jangadeiro é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

 

balanço da nêga

calada da noite
no balanço da nêga
calei minha boca
a sua se abriu
minhas pernas sambaram
os ombros erguidos
e os olhos fechados
você sorriu
dançou ao meu lado
calado, sedento
depois um abraço
apertado e molhado
suingue da noite
com a lua a cobrir

Balanço da Nêga é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

blue drops, i’m a dog

i show you everything better on me
i run at you everytime you want
and you look at me like i was
your little dog.

i go ahead and i try again
showing you how it could be
between you and me
and you look at me and say
you are my dog, baby.

and when everyway
won’t be there anymore?
what will you do?
while my blue drops tears fall down
i say i am still a dog.

but nothing is forever, sweetheart
i am yours, dogging you now
and when your world falls down –
‘cause anytime everything falls –
i tell you, honey, i will be a dog
but not yours… no more.

maria em banho-maria

vou cozinhar essa dor no meu peito
sem adicionar fermento
apenas algum tempero
pimenta, orégano e uma pitada de sofrimento.

vou mexer em sentido único
e manterei em fogo brando
porque já estou em banho-maria
com a calda já fria e os olhos marejando.

a crônica dor da saudade

quem há de transformar o amor
em saudade?

quem é o vilão que faz a saudade
virar dor?

a dor que estanca a coragem
do amor.

ouve, amor

ouve, amor
o que se esconde atrás
dos seus olhos
um fogo que arde
longe da palha delas
perto da minha estátua
fria a muralha
quente as palavras
que não usa
nem pra mim
nem pra elas
guarda todas no bolso
e recita aos seus botões
os amores que não amou
as paixões que quis ter
os beijos que contou
as dores que sofreu
o silêncio é alto
ouve?