Poeminhas

morena

olhe ao redor, morena, não há
nesse baile, moça mais formosa
qu’ocê, não há…

seu vestido, morena, é o sol
que alumia a noite
e deixa a lua envergonhada,
óia lá! ela já saiu pra passear…

seus passos vão pra frente, pra trás
e eu nunca sei, moça bonita
quanto tenho que esperar

giram a catira em ciranda
outras donas sem ter par
eu só penso n’ocê, morena
quando vou te tirar pra dançar.

vivo nessa travessia
em cima do muro
debaixo da ponte, dessa melodia
e ocê, morena, nem bola dá

sô hôme feito, moça jeitosa,
mas a vida me vê menino.
sô hôme feito, menina bonita
mas na calça curta ainda suspiro

seu vestido raiou o sol do meu dia
e eu não cansei de assistir,
morena, essa sua dançaria.

o saci

pula pega corre, o saci!
pula pega corre e se manda daqui!
se esconde atrás do cocho
com a água do moço que roçava o capim.

pula pega corre, o saci!
pula pega corre, deixa o gorro cair.
o moço, no pique, repica
co’ a enxada quase decepa o guri!

safado, devolve meu copo
– arruaceiro e arteiro, neguim! –
com água até a boca
pra sede engolir.

pula pega corre o saci!
pula pega corre na noite a fugir.
bocado de feijão
com farinha em pilão.

com a mulher não quer nem deitar.
mascando o capim roçado, o moço
espera a caça, a goela, secar,
dá nó no boné na ripa do poço.

sentado na rede, atado ao cometa.
o vento no rosto suado do dia
viaja da terra à luz das estrelas
brilha a lua-moça, o moço pisca.

pula pega corre, o saci!
pula pega corre com o gorro, neguim!
pula pega corre, o guri!
deixa só o redemoinho ali…

homem de gelo

quando o dia chamar você
pra caminhar na areia cinza
e seus pés na água molhar,
voa pra lá, não diga não
que o sol te espera no mar.

os carros correm loucos demais
homens com pressa de chegar
não é pra você este lugar.
esquece tudo, nem pare pra ver
que o sol está a te esperar.

o asfalto quente não vai queimar
seus pés descalços sem calejar.
por apostar, você vai liquefazer.
suas têmporas, sim, vão gotejar.
seus fluidos vão obedecer.

quando nessa água se misturar,
não tenha medo de se encontrar.
não há limite entre o mar e você.
só o calor vai te mostrar
as razões que há pra derreter.

tapume

este céu que lhe cobre a cabeça
não é azul, eu sei, daquele mar
e esta luz que te acorda na cama
não é de sol, eu sei, nem de luar
sua gravata vermelha, meu bem
não é borboleta, não vai voar
e as paredes em volta da mesa
são só tapumes pra tapear o jantar

o seu sorriso é melancolia
e serve só pra disfarçar
o dissabor de não ter alguém
não ter a quem se entregar
distância e distanciamento, querido
não dá pra comparar
o que um liga na vida em saudade
o outro, em tristeza, pode separar

enterrado vivo

a solidão me acompanha
em mais uma taça vazia.
e essas pessoas que vejo
se sentem tão arredias
diante de mim, pobre eu
que nada quero do que tenham.
justo eu! que agora observo,
distante de tudo, o sossego.

minha taça transborda e seca
como a vida do rio que se vai.
eu não tenho nada com elas,
só quero que vivam em paz.
eu sozinha sou chama acesa
e queimo por conta sim.
eu não quero o que lhe pertence
porque é tão pouco pra mim.

o que eu quero é esse segundo
de silêncio que tenho comigo.
eu quero é descobrir o mundo
que está por trás do jazigo
que você insiste em regar
com desprezo diário em castigo.
o que eu quero é poder amar
aquilo que enterrou vivo.

deixa

– vai, deixa ser a sua sina
ser a longa data
pra tão pouca vida
ser o seu costume
dar às suas dores
minha rasa medida

o que custa, vai, deixa
que eu fique e que seja
sempre a que chora
quando vai embora
no cair do dia
que há em toda hora

vai, me deixa por perto
tomar sua essência
não se faça de esperto
não se finja de morto
não te quero santo
nem tente estar certo

– o que tem? vai… fica
sempre ao meu lado
que você seja só minha
sem você não tem graça
meu tempo passa à míngua.
vai, fica em mim, menina.

a sete chaves

quem vai me pôr os limites
da boca até os ouvidos?
quem vai me fazer parar
encher seu copo de vinho
barato, vidro trincado
com esse amor divino?
barato, vidro trincado
com esse amor excessivo?

não interessa se o vento
sopra a favor do que eu sinto
bastava que me dissesse
que é que eu preciso
pra comprovar que reduto
não passa de um detalhe
quando o que se mantém vivo
é tudo mesmo o que vale.

quem vai me pôr na parede
pra arrancar meus segredos,
que a sete chaves eu guardo
o antídoto desse veneno?
esse amargo que insiste em
amordaçar seus instintos
e te atrofia os músculos
paralisado e faminto.

não diga que já é tarde
pra ter essa hora comigo.
o tempo em nada tem parte
onde fui posta em castigo.
bastava que eu saísse
daqui a qualquer momento,
e te encontrasse nas fendas
que esculpimos no tempo.

* A sete chaves é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

quando eu quis te esquecer

quando eu quis te esquecer,
acordei às seis da matina.
fui pro banho gelado
pra despertar da ressaca,
tomei café na padoca
pão na chapa, uma média.
pensei nas viagens que tive
enquanto você falava sobre
as águas quentes do Leblon
e os tsunamis no Japão.
quando eu quis te esquecer,
passei a chorar com frequência
ao ver na tv qualquer besteira.
até na rádio prestei atenção.
fui ao cinema ver woody allen,
achei graça no humor inglês.
larguei meu trabalho de vez,
me conectei ao espírito zen.
tentei fazer flor de lótus
em origâmis que piquei um a um
até transformar em mandala
pra pendurar no banheiro.
quando eu quis te esquecer,
perdi a hora do encontro.
perdi a cabeça e o dinheiro.
juntei minhas tralhas,
fiz as minhas malas.
e, com o juízo que ainda restava,
percebi que minhas idiossincrasias
era tudo o que eu podia ter feito,
e não fiz, todo dia.

alma à deriva

minhas mãos se revelam
para decorar suas linhas.
suas mãos ainda preferem
o pulsar que me mantinham

com sua voz a sussurrar
os seus sonhos projetados,
a verdade que procura
nas suas noites em claro.

minhas impressões, sua pele
e as suas por meu corpo.
no espaço entre meus braços,
o encaixe de seus ombros.

minha boca entreaberta,
esperança que saliva
sua volta à nossa casa,
enquanto sou alma à deriva.

sinfonia

o corpo ressoa em vibrato
o silêncio cantado nas veias
em ondas vermelhas por fora
em cordas azuis na madeira

retumba órgão apressado
os poros eriçam em brio
o som agudo dos olhos
é stradivarius no cio

o ar que rege a harmonia
inspira, em fole, o pulmão
em dor maior afinado
viola ventre contração

os pés marcam contratempo
em tempos difíceis e errantes
as mãos tremulam sem vento
suas notas tão dissonantes

ausência de som não existe
antes que se acabe o calor
de seu minueto de vida
e dorme seu trovador.

* Sinfonia é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão