Poeminhas

Poeminhas

você

você
que me fez acreditar
que a vida é feita
pra quem quer amar
que uma vida é pouco
para quem tem alguém
que uma vida é muito
se for sem você

amor
é o que se sente
sem sofrer em vão
é o que se diz
sem saber porquê
e o que se ganha
sem ter que pedir

você
que me falou coisas
sobre a solidão
confessou as lágrimas
de sua paixão
hoje cala no peito
o meu coração
pronto pra abrigar você

é possível que não

é possível que nada mais aconteça
nessa vida de surpresas pitorescas
e beijos de novelas com trilha sonora
que embalam os corpos em suas poltronas

é possível que não amanheça
depois dessa noite de disco riscado
e esse blablabla só pra livrar espaço
nessa cama de lugar reservado

é possível que eu não adormeça
ao som do jogo de cartas marcadas
e das pessoas que transitam aqui dentro
desse espaço morto que carrego comigo

sou tudo aquilo que não percebo
exatamente o que você não quer
sou tudo aquilo que você tem
sob o que rege o badalar do tempo

é possível que simplesmente não dê em nada
essa sua mania de canção e partido
levantar bandeiras e ir além das pernas
das morenas com quem divide o abrigo

é possível que eu já não queira
essa história de amor mal passado
que eu chute o braço do seu violão
como pau de barraca de barraco caído

é possível que eu não precise
olhar mais na sua cara em definitivo
se teve alguém que me prestou homenagem na vida
esse alguém, malandro, sou eu

algo mais

busca frases e detalhes
que escaparam no passado
pensando todos os dias
nas manhãs de sábado
e nas noites que seguiam
com os corpos acordados
no cuidado com as cordas
pra não tropeçar nos dedos

sem pensar que o tempo passa
leva todos os sinais
sem pensar que tudo acaba
o vazio é algo mais

quando a música era tema
da novela escancarada
na janela dos vizinhos
na tv em horário nobre
nas páginas dos jornais
tentivas de sucesso
pra quem sonha com amores
possibilidades imateriais

sem pensar que o tempo passa
leva todos os sinais
sem pensar que tudo acaba
o vazio é algo mais

hoje pede que ela volte
lhe devolva a sanidade
dos sábados e domingos
que amanhã já é sexta
e não quer passar
mais um ano nessa história
de pegar o violão e
não lembrar como se toca

excessos

o resto do açúcar
no fundo do copo d’água
me dá a dimensão exata
de quem eu sou sem você.
excesso para o líquido
sem gosto de antes
salgado de agora.

esse andar sem chão
quando pra frente
não é direção,
quando pra você
de fato morreu
esse tanto de açúcar
que sou eu.

as coisas que sinto em você

me perdi nas entrelinhas
tentando explicar o que vejo
nesse oceano azul que se abriu
e deságua em frente do espelho
mergulhar nos seus olhos e ver
as coisas que sinto em você

me perdi já que é humano
sentir o que não é óbvio
por mais claro que seja o motivo
por mais errado que seja o castigo
de não te ter, mas mesmo assim querer
as coisas que sinto em você

turbilhão sob a minha pele
na corrente veloz sem barreiras
leva o simples do amor pra bem longe
faz de conta que tudo é tão perto
esse medo que dá de arriscar
que não há nada nem nunca haverá
escrevo só pra entender
as coisas que sinto em você

* As coisas que sinto em você é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

prefácio

faz tempo que não escrevo aquelas coisas malucas
que só você entendia, daquela vida passada
em cigarros acesos, em ruas escuras
quando nada mais importava

hoje eu vejo que tudo o que vivemos
foi um prefácio do que não esperávamos
a introdução do amor
(a tradução do amor)

tudo que veio antes de hoje
não é um passado que se esconde em gavetas
não são letras que se molha
com as lágrimas de ontem

se olhamos pra trás é porque chegamos lá
naquele lugar que nem sabíamos
que queríamos estar
em novas fotos com a mesma cara

de quem não dormiu a noite toda
e hoje sei que não te escrevo
porque aproveitei pra dividir
momentos de uma vida com você

ela disse

ela disse que sonha comigo
que se esconde sob seus sapatos
toda vez que cruzamos caminho
e me quer como o velho clichê
e deixar reluzir o perigo

ela sabe que sonho com isso
toda noite com os meus olhos tão abertos
desperto

o mundo expande
quando tenho sorte de ganhar
o beijo improvável
em nossos horizonte invertido

ela viu que é o centro do meu universo
guardado na gaveta do armário
tento ser o que ela deseja
em fantasmas e desenhos no teto
que fingem que eu não existo

ela sabe que sonho com isso
toda noite com os meus olhos tão abertos
desperto

* Ela disse é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

ao final

o que vai fazer quando eu entrar
na sua vida de mala e cuia
o que vai fazer quando eu chegar
com luz, movimento e música?

o que vai fazer quando eu disser
pra mudar seus móveis de lugar
e o que vai fazer quando eu mandar
todos seus retratos queimar?

o que vai fazer quando eu mostrar
que nem sempre o amor é só amores
e o que vai fazer quando eu entrar
enfeitando sua casa com flores?

o que vai fazer quando eu chegar
numa explosão de cores vibrantes
e o que vai fazer quando eu te pintar
de vermelho laranja amarelo amantes?

o que vai fazer se eu sumir
com tudo isso que prometi
e o que vai fazer se eu sumir
pelo seu medo de ser feliz?

* Ao final é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

ela

ela que vem sorrateira
no meio da noite
na ponta dos pés
sussurra palavras

ah essa mulher

que me chega fagueira
me põe em seus braços
sabendo o que quer
murmura besteiras

ah essa mulher

que na ponta dos pés me alcança
beija e busca estrelas
suspensas em meu mural

ela que inspira uma a uma
ilumina constelações
do meu céu particular

migalhas

guardo versos pra andar
s o z i n h a

em cada um eu me encontro
n a  v o l t a

de longe o arco-íris
m o l h a d o

da chuva é aquarela
b o r r a d a

e o vento de doido
v a r r i d o

levou os meus papéis
e m b o r a

como é que eu faço pra voltar
a g o r a

disfarço o passo errado e olho
e m  v o l t a

que a estrada também foi com a
a u r o r a

mais uma vez

me dê um tempo a mais
para te pegar pela mão e andar
pelos campos abertos da redenção
pelas flores caídas no chão
nesse pouco frio que faz e achar
que você é minha e sempre será
minha voz estancada ao dizer
sobre as brumas dos lagos, eu sei
te quero mais uma vez
e mais uma vez
e mais uma vez

me dê um tempo a mais
para olhar pra você e chorar
pelo excesso de calma e aflição
pela hora errada de dizer não
quando podia apenas esperar
a fração de segundo pra te beijar
e sentir que não há mais a fazer
senão esperar florescer, eu sei
te quero mais uma vez
e mais uma vez
e mais uma vez

* Mais uma vez é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

caso diário

esse poço de fundo raso
no espaço quer abraço
e chorar enrustido
entre pele e vestido
soltar a língua
fechar os olhos
e comer prato cheio
desse corpo requentado

sol de julho

no vai e vem das horas
vejo o transitar das três senhoras
penduradas no pescoço dela
como relíquias de antiquário
pecando no confessionário
querendo um pouco do sol
de lá de fora
que só entra pelas frestas
entre portas e janelas
por querer um pouco dela

intrapontos

beijos densos a vapor
água lisa língua saliva
a ç u d e s

entre pernas mãos perdidas
pano esconde corpo mostra
l u g a r e s

onde frio derrete gelo
meio sol exala desejo
c a l o r e s

sob seios salientes
sangue músculo pulsante
a m o r e s

dizem

dizem que paixão é doença
e que fome é mania
dizem que rico não vai pro céu
e que pobreza é vingança divina

dizem que Deus é brasileiro
e que só em inglês intercederia
dizem que o Acre não existe
e que Titanic não afundaria

dizem que amor não existe
que felicidade é utopia
dizem que o mundo não tem mais jeito
dizem que o seu com o meu combina

dizem que a vida começa aos 40
e que aos 60 ela termina
dizem que o sol vai explodir o mundo
e que todo artista é vagabundo

dizem que palavra fere mais que culpa
que sexo só procria
dizem que dinheiro não é tudo
e que ser homem bastaria

Dizem é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

revide

não me troque
por qualquer segredo
não sou moeda
não sou dada à análise
de seguro de amor de vida
não me venha com sua lupa
não me ponha na balança
não saberá se valho
o que pensa
se não me levar à prática
se não me enfiar na vida
se não me olhar de frente
se não vir que sou transparente
que não traio o que sinto
por qualquer pedaço de isca
de verde ou rubro parente
não me coloque à prova
não me ria nas fuças
não me finjo de morta
não corro da briga
não morro por pouco
nem vou quedar agora

#contoacontagotas #8

Se cuidar de si mesmo fosse fácil, eu não estaria nessa sala de espera, esperando sei lá o quê. A secretária disse que ele fora ao banco, mas logo volta. Enquanto isso, caço teias de aranhas e formigas com migalhas de bolachas-água-e-sal nas costas. Também caço alguns centímetros de canelas com meias finas. Penso que se o que me resta de vida for inversamente proporcional ao que vou pagar pela consulta, tô fudido. Mas a paisagem certamente faz parte de consulta. Lá vem ele. “Olá, doutor. Não, sem problemas, todos temos nossas contas a acertar. Sim, ela deu pra mim e estava muito bom”… O café.

#contoacontagotas #7

Vinte anos foram suficientes para que ele aprendesse alguns palavrões em inglês. Loser-chicken-fuckyou-kissmyass. Em pensamento, pois era um bom cristão. Virou analista de sistemas e se escondia atrás das lentes grossas de seus óculos de armação preta. Camisa xadrez calça jeans sapatênis nada tão formal e uma cara de quem tomava toddy toda manhã sem ninguém saber. E sem ninguém saber ele passou por tantas ruas sem ninguém ver. Até que um dia, num ato de fúria, abriu a camisa sem desabotoar, de olhos fechados, com toda a força que tinha. Nada de “S” estampado no peito. Apenas mais uma camisa com botões frouxos e pendurados porque a força não era o bastante. A ilusão, o suficiente.

#contoacontagotas #6

Desculpe, confundo sempre testamento e testemunho. Para eles, deixo a amizade em dobro porque me deram. Para ela, fotos e todo o dinheiro que tiver porque será pouco. E gasto. Para você, deixo meu último amor porque é fato.