Poeminhas

soul cruel blues

nessa cadência viciada do meu blues
você diz que é bom rapaz
e me quer de um jeito
que não tenho como adivinhar
i’m good, honey, i’m good
you’ll see, você diz
e o que eu quero mesmo é sair daqui
te arrastar pra qualquer esquina
yeah, baby, soul cruel sometimes
e você com essa cara de sacana
vem me dizer que sou a garota bacana
que sua mãe pediu a deus
hey, honey, don’t say i’m good
good girls can’t survive here
não, eu não sou flor que se cheire
minhas pétalas você quer mascar
yeah, você diz que é bom rapaz
mas já sei que seus olhos são trapaça
para eu cair nessa sua lábia
e, se você quer saber, eu não ligo
vou aí te dar um beijo que essa noite
é a armadilha que eu precisava

* So cruel blues é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

satélites

o pó das estrelas confunde sua visão
de que o universo conspira a favor
da sua estrada de constelação.
em mil galáxias já se perdeu
antes de encontrar sua rota-salvação
nessa nau deixada no espaço,
flutuando sem nenhuma intenção,
em desprezo aos satélites
que apontam a outra direção:
o caminho de corpos celestes
brilham para chamar sua atenção.
cuidado, menino astronauta do espaço!
você acabou de chegar ao lançamento
do mais novo cometa que vai cruzar
o seu céu por noites adentro,
mesmo que você não queira olhar.
nesse universo infinito de amor,
sempre pronto a acolher seus feridos,
o cometa aponta humilde
aquela luz que criou tudo, menino.
não se engane, você não pilota satélites,
nem estrelas, menino astronauta do tempo.
a luz que reflete sua nave,
menino, só ilumina o que tem dentro.

encontro com o agora

hoje eu vi o inimigo.
travei com ele uma luta
bem na frente do espelho.
me deixou suspensa no ar
com um golpe em apneia.
hoje eu cheguei lá
onde a paisagem é sem cor
e não há parede para se encostar
e nem luz para se ver.
um labirinto sem saída
com rosas murchas
quase sem vida.

hoje eu vi
que a distância é doída
que suspiros se apagam
com o tempo, amores também vão.
hoje eu não quis mais nada.
meu corpo, pendurei no cabide.
uma roupa usada
que esfregaram ao limite.
uma trama frouxa
uma trouxa desajeitada.

hoje eu escrevi à mão
com caneta e folha nova
nova em folha, acredite.

vou dar-te férias de mim

vou dar-te férias de mim
férias de tudo
que sou dentro de ti
fora do mundo

vou dar-te férias de mim
por um segundo
para que vejas quem sou
de longe e mudo

vou dar-te férias de mim
pra que te esqueças
que sou jovem hoje
e anoiteças

vou dar-te férias de mim
sente saudades
cala contigo esta dor
e a arremata

vou dar-te férias de mim
que não me vejas
por uma noite ao menos
e amanheças

vou dar-te férias de mim
sozinho fiques
até quando me cansar
deste limite

vou dar-te férias de mim
mas não te animes
porque amanhã hei de voltar
a teu convite

vou dar-te férias de mim
férias de tudo
e que o amor seja a sós
o meu reduto

seus olhos

seus olhos são pontes
p a s s a g e m
para o lado de lá de
v o c ê e m m i m

em suas pálpebras
m e e s p r e g u i ç o
e mergulho na piscina
q u e v o c ê n ã o v ê

seus olhos, meu estado favorito
d e c o n t e m p l a ç ã o
seu olhos, que sem, você
n ã o t e m v i s ã o

seus olhos, meus trópicos
c a l o r s e m p u n i ç ã o
ficam paralisados e brilham
e u e m e b u l i ç ã o

transgressão

debaixo da tarja vermelha você vê
e suspira nos cantos que te prendem
o que come com os olhos e sente
escancarado e não se arrepende

esse farol distante porto inseguro
é o prazer em estado de alerta
gosta que seja assim obscuro
o seu mal na medida certa

a dose exata da palavra
os ais que você quer dar
o silêncio que quer ouvir
o fluido que quer encontrar

a um passo do abismo, o sim
corpo oscilante quer transformar
sua razão no querer imoral
atravessar e ultrapassar o sinal

não quero depois

como a água que enche o copo vazio
você preenche meu corpo e assim
me fala te amo aos ouvidos
me pega no colo revira o carmim

em minhas pernas dormentes
depois de me tirar o lençol
diz que é tarde pra despertar
que lá fora me espera o sol

mas antes de me deixar escapar
ir embora para onde deus quiser
me olha nos olhos intenso
derrete o gelo, transforma em maré

fala que não temos que ir agora
diz que não há ontem nem amanhã
que o agora é o presente da vida
e torna em leveza o afã

eu que bem que podia me segurar
fazer de difícil e não aceitar
me jogo em sua cama bem à vontade
estico os braços pra te alcançar

e deixo que toda manhã seja assim
sem pensar em jornal cigarro e café
faço de conta que o agora é tudo
é o que alcançamos na ponta dos pés

em cima da mesa esqueço o mundo
e as folhas datadas que vêm pr’eu pagar
só saio de perto pra buscar a água
do copo que você deixou derramar

o tempo que temos é imensidão
não perco o meu pra contar um a um
dos dias que passo sem você
e sinto sua pele em minhas mãos

vem cá vem pro meu lado agora
deixa eu te ver mais uma vez
ser tua cobiça e pecado afora
faz o que bem quer e o que eu quero também

vem cá vem e vê se não demora
que a vida é uma só pra nós dois
vem cá vem não vá embora
todo dia é igual, menos pra nós dois

*Não quero depois é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

poluição

eu sujo esse mundo com minhas palavras
respostas difíceis para perguntas fáceis
complico a vida com constatações
que deviam ficar dentro dos galpões
da minha cabeça

poluo as ruas com os meus papéis
meu som é barulho, excesso de dor
que jogo no mundo pra ver seu amor
faço porque quero chamar sua atenção
pra ter o seu não

besteiras que faço publico em painéis
meu público aplaude minha embriaguez
enquanto caio das escadas dos hotéis
premeditado meu último ato
sigo pro próximo trago

* Poluição é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

outra direção

só sofre quem tem o direito
quem cala a dor dentro do peito
e sente que tudo que podia foi feito
mesmo que o vício persista
mesmo que o amor resista
e a saudade te puxe pelos pés
esqueça
as placas indicam outra direção
se você sempre disse sim
é hora de aprender o não
saia na chuva pra se molhar
deixe-se misturar nessa água
a sua dor não é morte
a sua dor não é mágoa
a dor é onde está agora
e depois onde vai estar
a sua dor é mudar de lugar

* Outra direção é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

outra esquina

olhando daqui de cima
onde as preces são recebidas
eu me permito mas não devia
ser sua agora e por mais um dia

avaliando daqui do alto
de onde vejo o que deus cria
eu me permito mas não devia
ser seu amor, sua rotina

miro de longe aquele rio
que apressado corre pro mar
eu me permito mas não devia
deitar no leito da hora vazia

o vento forte cobre meus olhos
vendando todos os meus desejos
daqui do alto, salto tranquila
pra te encontrar em outra esquina

o presente nos dirá

não leve tudo tão a sério
dessa você não sai vivo
precaução é pra quem tem
medo do escuro
um dia por vez, uma vez ao dia
comprimidos e o trailer que
o destino quis mostrar
sobre amor o presente nos dirá

não adivinhe o que penso
esse erro é de um estranho
pra que tanto auto-controle?
o futuro não é imóvel modulado
espie pela janela e veja
o tempo que passa enquanto você planeja
o melhor ataque é sempre uma surpresa
sobre amor o presente nos dirá

amanhã você vai abrir a porta
e se ver num mundo novo
estranhos vão entrar em sua casa
inimigos vão fazer a janta de domingo
pra depois deitar em sua cama
acordar e tomar o seu café
vai se preocupar pra quê
os estranhos você vai reconhecer

não me fale em testamento
bens imóveis intangíveis no momento
se não você, eu serei o primeiro
a contar as migalhas do acaso
tudo é imprevisível e improvável
possível transponível e paralelo
próxima semana por agendar
sobre amor o presente nos dirá

amanhã…

contando as horas

como vou contar o óbvio
cada história que passei
se ao seu lado eu já estava
aqui mesmo sem você
mesmo sem saber ao certo
tudo que guardou pra mim

enquanto estou contando as horas

como vou contar contigo
se você ainda não chegou
sua pele me revela
quantas outras já tocou
quando só eu era a dona
de tudo que reservou

enquanto estou contando as horas

como vou contar o tempo
no relógio atemporal
que me mostra a todo instante
a impossibilidade de te reencontrar

como vou contar os dias
nesse calendário torto
cada xis que marco nele
parece que apaga outro
viro a página desse mês
pra repetir tudo outra vez

* Contando as horas é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

porque se contenta com pouco

quando o nada é promessa
de uma vida tão modesta
nada é o que se espera
dessa vida de porvir

quando o pouco se apresenta
tanto enche os olhos dela
e preenche as lacunas
do vazio da promessa

quando o muito se lamenta
de não ter o pouco dela
dessa sorte que contenta
o tão pouco que a alegra

e atormenta dia adentro
porque pouco é quase nada
e pra ela é mais estrada
não importa o dissabor

lembra que nada é previsto
ao surgir tão pouco, lindo
de tão longe, muito vindo
por escassos serem os seus

ela que nada teria
brinda o pouco todo dia
por menor que ele seja
por tão grande alegria

e o pouco permanece
na vida, nada presente
com a lição de se bastar
sorte, muito é ser suficiente

* Porque se contenta com pouco é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

aconteça em nós

eu quero ser
quem vai te encontrar
aqui ao
pôr do sol

nesse teu mar
quero me envolver,
deixa fluir
teu calor

nas espumas que trazem nova luz
pra cobrir tua pele com o sal
e fazer o amor
acontecer em nós

eu quero ser
quem vai silenciar
tua voz
te levar

nas águas mais claras
desse querer, ver o teu corpo
dançar nas ondas
e sobre o meu
amanhecer…

eu quero ser
quem vai te devolver
ao sol e ver
você se pôr…

* Aconteça em nós é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

lembrete de geladeira

passando pra dizer saudade
e algumas verdades que aprendi
depois de passar por esse lugar
onde você está
você só precisava de uma rua
pra poder passar
de repente se depara com ela
e vê que é só caminhar
o primeiro passo, de olhos fechados
ainda com aflição do que pode ser
o calor sob os pés descalços
aquela mão que se solta da sua
apresenta e obriga o equilíbrio
aquela coisa que te põe no eixo
aquela coisa indispensável
mas só para o caminhar
todos os próximos passos
dependem só de soltar da mão
e girar e tremular com o vento
abrir os olhos e ver que onde você andava
não era rua, era mundo
e o calor não era asfalto, era guia
que te prendia ao poço fundo
então não ande, voe
porque a estrada é feita
de chumaços de algodão
tire a mochila das costas
nela não há nada que sirva
no lugar que te espera
degraus acima da lama
limpe os pés na entrada
deixe o resto para trás
se da vida não se leva nada
venha com tudo que é

sem teoria

tem dias que me dá preguiça
de ver sempre a mesma coisa
tem dias que a preguiça
toma forma de pavor
tem dias que só fora eu encontro a saída
tem dias que lá fora é furacão
todo dia uma corrida atrás do pão
quando o sim não mostra cara
você tem que engolir o não
todo dia o que sabem é o que se tem
quando o que se é já não faz questão
saltar para amenidades
é aceitar o lado morno da razão
você tem que acordar pra inspirar
uma legião de gente perdida
você tem que levantar a cabeça
só porque faz cara de decidida
quando ninguém vê que o que você é
não é aquilo que faz todos os dias
você é aquilo que sonha escondida
em menos tempo do que gostaria
você não é aquilo que come
nem o que cospe no prato de cada dia
você é aquilo que corre por dentro
e nem chega perto da teoria

vamos amor

amor, vamos morrer de velhos
de amar esse cotidiano insano
vamos correr feitos crianças
nos corredores dos templos calados
de mãos dadas e olhos fechados
amor, vamos viver o tempo
que ganhamos de brinde apesar da hora
que queixamos o mapa desdobrado
que confunde nossos itinerários
que queremos manter em comunhão
amor, vem pro nosso mundo sem demora
não vivo nem um segundo sem pensar
na eternidade dos instantes com você
que acabam antes de amanhecer
amor, vamos sumir por esse caminho
esconder debaixo da cama nossos desvios
as sacanagens que cometemos em segredo
sem um pingo de vergonha e silêncio
às favas os vizinhos emprestados
amor, vamos fazer tudo de novo
hoje amanhã e nos próximos anos
e lembremos de nós nas próximas vidas
como quem tem déjà vu a cada esquina
amor, vamos esquecer o passado
que é caminho de atraso de vida
o destino vem pela porta da entrada
vem de frente, viagem sem escala
eu pra você, você em mim essa loucura
essa euforia que se chama liberdade
do amor desmedido sem prazo de validade
amor, vamos morrer de amar em vida

apneia

eu vivo no sonho onde tomo fôlego
aqui é lugar de prender o ar.
minha apneia despreza oceanos
meus olhos afrontam a beleza do mar.
e eu só preciso perder esse medo
pra na superfície me dominar
para mergulhar em seu desapego
eu sou o desejo e o medo de amar

eu vivo é na sede do sal dessa água
afluente em mim que nasce em você
e faz do que sou o que você tem
todo o ar que falta pra se emergir
minha fantasia é a verdade de muitos
que queimam por dentro e não sabem porque
minha poesia é estar nesse mundo
versos paralelos pra te descobrir

sou sua represa de sonho e mistério
verdades que nunca pode revelar
sou o lado inverso da realidade
lugar que procura ao anoitecer
sou o seu espelho ainda quebrado
passagem secreta pra te libertar
sou sua apneia, o beijo da morte
os riscos que você tem que correr

* Apneia é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

do seu jeito

me chama me puxa
me rouba todo o ar
me empurra me deixa
me pede um pouco mais
me pega de jeito
diz que não é assim
me jura de morte
fala que nunca mais
me quer do seu modo
eu mudo a translação
que a lua espera
e clama por paixão
me morde me arranha
diz que não quer sofrer
me beija me acolhe
me joga aos seus pés
me afoga na ilha
me deixa não fugir
me tira com vida
pra eu poder voltar
me vira no avesso
a vida e o coração
me põe no seu bolso
me leva com você
me fode a cabeça
provoca sem querer
me injeta na veia
eu corro por você
me prende entre as pernas
me põe em perdição
me pede com jeito
eu faço o que quiser

* Do seu jeito é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

uirapuru na cidade

faísca de vida
acorda no vento
da chama à fumaça
entoa o lamento

o caos, a corrida
urbano contexto
assobia no galho
do eterno cimento

a paisagem moldura
fotografia do tempo
da rua o balé
de verde cinzento

ao céu se levanta
findando o tormento
flutua no ar
procura o momento

ascende, rasante
vermelho no peito
pé ante pé dançante
corda bamba no leito

uirapuru na cidade
canta sorte a contento
rendeiro de amor caçado
ferido de amor primeiro

*Uirapuru na cidade foi feita exclusivamente para o cd “Corda e Vento” (2010) do duo Urubatã