Poeminhas

o farol e o cais

quando o olhar é
luz em noite sombria
e a lembrança
é o claro existir.
quando o que sente
é saudade da vida
e o riso é a música
mais linda do dia.
quando crer é
o único posto a assumir
e estar lado a lado
é tudo para se pensar.
quando a alegria
é estado em comum
e o despertar
é para fazê-lo feliz.
quando nada mais
é preciso jurar
e as palavras
jamais são iguais.
quando o amanhã é
o melhor de nós dois
e o amor é o farol
e o cais.

final blues

hey, baby, não adianta fazer assim
porque o tempo passou pra você
mas também correu pra mim.
e agora eu não quero mais seu destilado,
esse líquido quente biliático que me serviu.

não, não vem com essa de que nosso amor
foi tão lindo e tem uma vida pra contar.
porque dessa história já tô cheio demais
e vou vomitar todos os seus nãos.
baby, não sabe o que é ter de engolir essa droga
que você me injetou todo esse tempo.
o que você queria? caiu na corrente
tomou meu corpo e agora quer é sair
pelas orelhas…

nem vem com essa de romance, querida…
essa ferida abriu tem dias nessas horas
e eu não quero mais segurar na sua mão
e te ensinar a andar no labirinto que você
criou com pouco caso sobre nosso
caso de amor infindável…

hey, baby, tudo acaba enfim…
se havia alguma chance, pode esquecer,
você colocou um ponto final nesse blablabla
que eu chamei de amor.
se houvesse um jeito de curar toda a dor
ah eu teria encontrado,
mas até a esperança acabou
e mandou lembranças para o blablabla
que você calcificou.

não, querida, eu não vou te ensinar
a sorver o doce do vinho barato que escolhi
pra me embriagar bem longe da sua companhia.
não vem me ludibriar com seus olhos de preguiça.
a minha lucidez fica
no porta-retrato que deixo pra você
na saída.

poeira estelar

peguei papel e giz de cor
pra desenhar no mural
o destino que queremos ter.
você falou da falta que faz o calor
do sol das seis e do nosso amar
com poros liberando o vapor.
tudo que sou capaz de fazer
para estar com você são milagres
que você nunca, nunca ouviu dizer.
buscar estrelas e anéis planetários
qualquer poetinha faz. Eu sou humana!
sou da rua bem longe da sua.
o que são algumas milhas de quadras
para quem arremessa no céu
constelações de estrelas do mar?
o santo move montanhas. Eu sou humana!
deslizo oceanos e arrasto países
com pranchas continentais.
eu laço dragões de luas perdidas
galáxias que nem chegaram a avistar.
tudo tão perto à minha medida…
eu sou humana!
coisa mundana essa de querer explicar
a mudança da trilha do vento
e a onda que vem arrastar…
tudo que foge aos olhos está pendurado
no cristal colorido e inquebrável
no teto da casa em que vamos morar
tudo que foge aos olhos está desenhado
com um sopro de poeira estelar
que faz você lumiar.

colonial demais

nos campos verdes de grama rasa,
eu caminhava sem qualquer pressa.
o céu laranja, nuvens paradas ,
o dia todo um fim de tarde.
ora grama, ora asfalto
naquelas ruas eu alternava.
olhava as casas, via castelos,
em construção, mini-palácios.
lagos de suco, peixes de plástico
flor de inverno abre em sorrisos
nas relações de convenção.
nesses dias de tardes infindas,
lembrava lugares de menos pompa
onde o céu não fingia sua cor.
eu me banhava em água fresca.
o sol ameno em sóis girava
e as primaveras beijavam flor,
onde a sombra do inverno não chegava,
pisoteada pelas formigas no chão.
hoje caminho por essas vias
coloniais e sem função.
olho sobre seus ombros e vejo
o simples e quente casarão.
olho de novo para mim e sei
que a vida toda passei em verão.

casanova

eu quis tanto conhecer
as ruas que te seguiam
nas manhãs de me ver
hoje em dia reconheço
em retratos coloridos,
em prazeres refletidos
nas janelas garrafas e livros,
nos letreiros dos botecos,
em mil rodas de amigos
que nunca estão contigo.
essas ruas, feito esteiras,
te carregam pelas beiras
das pedras ao chão batido.
casanova gato trepadeira
cercados de muros que mofam
e ruem sobre as parreiras.

não há amar sozinho

amor,
não há amar sozinho.
cada poro do corpo é alma
na inquietude do mundo, e cala
no mergulho dos olhos. fala
de se entregar não com coragem
mas sem sequer rastro de medo
e fazer cada minuto
o latejar do tempo.

amar é confundir os cheiros,
impregnar-se em desejo
e nele despertar a centelha.
amar é se fundir no beijo.
é um ser pleno enquanto dois.
é aguçar o que pulsa, instinto
no quase extinto
amor,
não há amar sozinho.

*Não há amar sozinho é música de Mauricio Nogueira e letra de Lívia Gusmão

quero

eu quero ao menos que saiba
de tudo que sinto e me escapa
à rotina, à palavra e ao dia
mas não à superfície e à alma.

do sentido que me mostrou e me deu
de presente e colheu em semente
da saliva que ferve e irriga
nossos lábios e olhos e ventre.

quero que reconheça em meu corpo
todas as matizes do mais sincero,
escancarado e descarado desejo,
de quando te vejo depois que te espero.

quero adorar sob medida
quem quer amar por toda a vida
com a incoerência adolescente,
da primeira vista ao inédito de todo dia.

quero que sinta com perfeição
os movimentos que o levam perplexo
aos acidentes por onde caminha,
até pulsar sincopado em excesso.

e finalmente perceba o espaço
que ocupa único constante e vasto
nas entranhas do mundo que sou
sua essência de amor em frasco.

na sua ausência

na sua ausência
faço as refeições do dia
durmo doze noites por hora
líder de toda a cambada
já sou chefe do diretor
e já sei como é ter
puxa-saco no corredor.

na sua ausência
mil amigos aparecem
me chamando pra jantar
dizem que sou bom partido
e que querem se casar
eu já sei como é ser objeto
de cama, mesa e bar

na sua ausência
coleciono as aventuras
e pra suportar o pique de
indiana de final de semana
eu entrei na academia
faço farra e cambaleio
nas ruas em que eu me perdia

na sua ausência
sinto o gozo da abstinência
que chego até a suspeitar
que é de plástico seu jardim
e que sem você por perto
não sou metade de mim.

minha dose

lamento, meu amor,
mas é minha essa cicuta.
dá aqui minha dose
que é pra me apagar por essa noite,
talvez na próxima e nunca mais.
não tô afim de pagar pra ver
o que está pra acontecer.
essa vida é feita de caminhos
traçados mal cruzados e alinhavados
que, com o tempo, soltam minha roupa
e se penduram feito botões de plástico.
lamento, meu amor,
mas aqui não são só as flores
que contam mentiras de algodão.
aqui até os azulejos conspiram
contra os velhos nus diante do espelho.
nessa espelunca, curvam-se tapetes,
mas é só um jeito fácil pra te derrubar.
e eu não tô afim de pagar pra ver
a hora de cada máscara cair
e olhar de novo aquelas caras feias
que vejo em noites de pesadelo.
meu bem, me dá a cicuta
que é hora de eu dormir.

anônimos

eu me misturo a todos eles
em seus sóis, suores e sonhos,
com a cabeça repousada
por sobre os ombros.

eu me misturo a todos eles
em seus horrores, horas e honras,
de batalhas perdidas
e grilhões mantidos à sombra.

eu me misturo a todos eles
como uma colegial uniformizada,
em sincronia com a fila
na coreografia da passeata.

eu me misturo a todos eles
em cores pardas de papel de pão,
como gado que sai do curral
com pressa, sem saber aonde vão.

eu me misturo a todos eles
porque somos os mesmos então.
não temos brasão nem sobrenome
quando nosso nome é multidão.