Poeminhas

tapume

este céu que lhe cobre a cabeça
não é azul, eu sei, daquele mar
e esta luz que te acorda na cama
não é de sol, eu sei, nem de luar
sua gravata vermelha, meu bem
não é borboleta, não vai voar
e as paredes em volta da mesa
são só tapumes pra tapear o jantar

o seu sorriso é melancolia
e serve só pra disfarçar
o dissabor de não ter alguém
não ter a quem se entregar
distância e distanciamento, querido
não dá pra comparar
o que um liga na vida em saudade
o outro, em tristeza, pode separar

enterrado vivo

a solidão me acompanha
em mais uma taça vazia.
e essas pessoas que vejo
se sentem tão arredias
diante de mim, pobre eu
que nada quero do que tenham.
justo eu! que agora observo,
distante de tudo, o sossego.

minha taça transborda e seca
como a vida do rio que se vai.
eu não tenho nada com elas,
só quero que vivam em paz.
eu sozinha sou chama acesa
e queimo por conta sim.
eu não quero o que lhe pertence
porque é tão pouco pra mim.

o que eu quero é esse segundo
de silêncio que tenho comigo.
eu quero é descobrir o mundo
que está por trás do jazigo
que você insiste em regar
com desprezo diário em castigo.
o que eu quero é poder amar
aquilo que enterrou vivo.

deixa

– vai, deixa ser a sua sina
ser a longa data
pra tão pouca vida
ser o seu costume
dar às suas dores
minha rasa medida

o que custa, vai, deixa
que eu fique e que seja
sempre a que chora
quando vai embora
no cair do dia
que há em toda hora

vai, me deixa por perto
tomar sua essência
não se faça de esperto
não se finja de morto
não te quero santo
nem tente estar certo

– o que tem? vai… fica
sempre ao meu lado
que você seja só minha
sem você não tem graça
meu tempo passa à míngua.
vai, fica em mim, menina.

a sete chaves

quem vai me pôr os limites
da boca até os ouvidos?
quem vai me fazer parar
encher seu copo de vinho
barato, vidro trincado
com esse amor divino?
barato, vidro trincado
com esse amor excessivo?

não interessa se o vento
sopra a favor do que eu sinto
bastava que me dissesse
que é que eu preciso
pra comprovar que reduto
não passa de um detalhe
quando o que se mantém vivo
é tudo mesmo o que vale.

quem vai me pôr na parede
pra arrancar meus segredos,
que a sete chaves eu guardo
o antídoto desse veneno?
esse amargo que insiste em
amordaçar seus instintos
e te atrofia os músculos
paralisado e faminto.

não diga que já é tarde
pra ter essa hora comigo.
o tempo em nada tem parte
onde fui posta em castigo.
bastava que eu saísse
daqui a qualquer momento,
e te encontrasse nas fendas
que esculpimos no tempo.

* A sete chaves é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

quando eu quis te esquecer

quando eu quis te esquecer,
acordei às seis da matina.
fui pro banho gelado
pra despertar da ressaca,
tomei café na padoca
pão na chapa, uma média.
pensei nas viagens que tive
enquanto você falava sobre
as águas quentes do Leblon
e os tsunamis no Japão.
quando eu quis te esquecer,
passei a chorar com frequência
ao ver na tv qualquer besteira.
até na rádio prestei atenção.
fui ao cinema ver woody allen,
achei graça no humor inglês.
larguei meu trabalho de vez,
me conectei ao espírito zen.
tentei fazer flor de lótus
em origâmis que piquei um a um
até transformar em mandala
pra pendurar no banheiro.
quando eu quis te esquecer,
perdi a hora do encontro.
perdi a cabeça e o dinheiro.
juntei minhas tralhas,
fiz as minhas malas.
e, com o juízo que ainda restava,
percebi que minhas idiossincrasias
era tudo o que eu podia ter feito,
e não fiz, todo dia.

alma à deriva

minhas mãos se revelam
para decorar suas linhas.
suas mãos ainda preferem
o pulsar que me mantinham

com sua voz a sussurrar
os seus sonhos projetados,
a verdade que procura
nas suas noites em claro.

minhas impressões, sua pele
e as suas por meu corpo.
no espaço entre meus braços,
o encaixe de seus ombros.

minha boca entreaberta,
esperança que saliva
sua volta à nossa casa,
enquanto sou alma à deriva.

sinfonia

o corpo ressoa em vibrato
o silêncio cantado nas veias
em ondas vermelhas por fora
em cordas azuis na madeira

retumba órgão apressado
os poros eriçam em brio
o som agudo dos olhos
é stradivarius no cio

o ar que rege a harmonia
inspira, em fole, o pulmão
em dor maior afinado
viola ventre contração

os pés marcam contratempo
em tempos difíceis e errantes
as mãos tremulam sem vento
suas notas tão dissonantes

ausência de som não existe
antes que se acabe o calor
de seu minueto de vida
e dorme seu trovador.

* Sinfonia é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

as horas

paciência sossego e lençol
as horas insistem em me tirar
e riem às custas da saudade
de você que penso em matar

e quando eu só penso em te ver
as horas derretem na parede
fazem hora nas minhas viagens
esticadas em minha rede

quando te encontro e reconheço
na nossa cama, horizonte e calma
pares de beijos em câmera lenta
e a liberdade refém da alma

um passo a frente por um minuto
sessenta vidas pra ter você
um passo a frente por um relógio
de horas sem pernas para correr

passam em branco pelos meus dias
horas que tenho pra não te ter
o relógio anda, mas não adianta
tiro os ponteiros pra gente não ver

o ser e suas divisas

certa vez, disseram para eu falar menos palavrão.
aquilo tornava grotesca minha figura delicada.

disseram para eu me emocionar menos com o trabalho.
aquilo truncaria a produção.

também disseram para eu controlar meus ímpetos.
que, uma hora ou outra, não seriam mais aceitos pelos demais.

já me mandaram falar mais baixo, rir mais baixo, chorar mais baixo.
porque, claro, o mundo não precisa saber pelo que estou passando.

conselhos recebi aos montes.
pense menos, faça mais.
pense mais, sinta menos.

e depois de ouvir tanta coisa, me pergunto:
em que mundo poderei viver em verdade?
de verdade, em que mundo serei eu?
que lugar abrigaria o que abrigo em mim?

ser é território.
mortos e feridos em avanços de fronteiras.

quanto de seu território já perdeu?
quanto perdi eu?
já deixou de ser quem é para ser um não-eu?

tão você

porque sou tão pequena em compreensão.
porque sou tão grande em aparição.
porque sou tão crente em gratidão.
porque sou tão inclinada à incorreção.
porque sou tão vulnerável a sua opinião.
porque sou tão contrária à desconstrução.
porque sou tão faminta de aceitação.
porque sou tão carente de adoção.
porque sou tão suave a querer sua admiração.
porque sou tão pesada a provocar sua irritação.
porque sou tão eu a te provocar lesão.
porque sou tão você em vísceras e coração.

* Tão você é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

o tempo das coisas

qual é o tempo da morte?
por que ela não se divide
em mil partes na vida
e nos coloca os limites?

por que o tempo condena
meu tempo de acolhida
do aprendizado constante?
por que me zomba a ferida?

qual é o tempo de vida
que nós teremos ainda?
por quantos dias ficamos
à parte em tantas brigas?

por que não deixa que eu viva
nesse planeta esquecido?
se houvesse vida na terra
ninguém teria partido.

qual é o tempo do amor?
por quantas horas insiste?
em que diálogo nasce?
com quais palavras desiste?

por que não vê que é hora
de acordar para a vida?
por que não vê que o amor
não é entrada, é saída?

qual é o tempo do erro?
por quanto tempo ele vive?
qual é a hora em que morre?
por quantas vezes persiste?

por que as barras de ferro
para calar os detidos?
o ar respira entre eles
suspiro livre arbítrio.

as pétalas

eu quero tanto ir,
mas tanto!
buscar o que deixei cair
no seu colo e que cuidou
aos prantos.
eu quero tanto voltar
ser parte
dessa paisagem ímpar.
do sol que nasce e parte
em obra-prima.
das matas que brotam
na periferia
de cara pro mar,
a grandiosa poesia.

ah mas eu quero tanto
me revolucionar.

eu quero tanto que se eu voltar
é bem capaz de não saber
do seu colo e do que deixei cair
pra depois resgatar.
a beleza é tanta
quanto a vontade de te ver.
de sentir essa brisa que cola
sorvida na pele que sua
as bromélias do jardim.
do som dos bambus ao vento
dando ritmo ao movimento
e som ao nosso festim.

eu quero tanto ir
que nem cheguei a sair.

o pão nosso de todo dia

o que mata não é seu humor
o que me mata é o seu amor
pior pra mim, melhor pra você
o que eu preciso todo dia
meu escapulário divino
meu santo, meu demônio
herege e puro ser

o que mata não é querer
o que mata é não te ter
porque em mim está, é fato
o suspiro ao acordar
espreguiçar pra adormecer
desejo de matar
delírio de morrer

o que mata não é amar
o que me mata é o não você
o que te sobra na pele
o que deixei nas entranhas
da sua alma encruzilhada
entre o pão nosso de todo dia
e a fome que te faz viver

* O pão nosso de todo dia é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

blues de passagem

você passa seu blues
inviesado nas pernas
das morenas e louras
de portas abertas

eu viro as costas
pra não ver chegar
você, sua cara blasé
e seu ar de star

você pegou meu blues
nele foi se perder
ele é blues de amargar
é um blues de doer

o seu tempo acabou
quis cavar com colher
a mina que escondo
dentro dessa mulher

você pegou meu blues
e deixou escapar
você deixou meu blue
para o tempo passar

meu blues é passagem
pra onde você não está
meu blues ‘tá de passagem
pra onde você não quer chegar

todo amor tem fim

todo amor acaba
quando o mel da lua derrama
quando os panos quentes
formam lágrimas na cama.

todo amor se finda
quando a lua de mel termina
quando olha pro outro lado
a cada virar da esquina.

todo amor tem fim
quando fica atrás
de um sol insone.

todo amor tem fim
vai morrer em mim
quando a lua cheia some.

* Todo amor tem fim é música de Christiaan Oyens e letra de Lívia Gusmão

velas

de aromas inconfundíveis
acendo essa vela branca
tudo contemplação para mim
seus defeitos suas manchas

essa vela pinga gota a gota
de sua cera em meu lençol
e a fumaça entra pelo nariz
faz seu perfume, meu anzol

esse ar de formas infindas
que me pegam pela cintura
esse gosto de menta que dá
ao oxigênio que quero tragar

sua luz mostrando contornos
do suor que se equilibra
entre os cílios abrasados
do calor que sua vela dá

e esse cheiro de canela
que às coxas quero prender
dessa vela rubra intensa
assopro a chama para ver

chamo balanço desfaço
derreto na ponta dos dedos
essa vela de perfume raro
de fogo pra queimar segredos

essa vela incendeia meu quarto
explodindo janelas e medos
pra recriar um novo barco
e queimar minhas velas ao vento

e deixar molhar o seu rosto
como chuva represada na mina
e deixar derreter a seu gosto
minhas gotas de lamparina

a última ponta de estrela

de um insuportável azul
não dá nem gosto de ver.
tão vazio de suas formas,
as nuvens foram brincar
no quintal de outro lugar.

no meu dia jogam véus,
os flocos dos meus olhos.
derramam suas águas
pelos poros de quem sabe
das nuvens e do amar.

imóveis, as que ficaram.
pura inveja do seu olhar,
da última ponta de estrela,
da espuma de seu mar,
do nosso insuperável amar.

a crônica dor da urgência

um dia ele foi à vidente, desesperado de tanto amor que tinha, mas lhe faltava companhia. a vidente lhe pegou a mão e disse coisas sobre as vidas: essa, a passada, a próxima, a dos outros. falou que esse tormento acabaria quando, um dia, encontrasse uma moça chamada joana. que ela lhe viria morena, bonita, sabida da vida, da dela, da dele, da sua, da dos outros. que lhe transcenderia o corpo e a alma, dos poros da face ao cordão dourado do umbigo. assim, ele vagou feliz por mais um tempo e joana lhe veio como a vidente descrevera: morena, bonita, sabida da vida e com alguns adereços a mais que só lhe permitiria saber quatro semanas depois. eles se casaram e tiveram filhos, aos montes, às pencas, nas bananeiras, nos paióis. um dia ele foi ao mercado e, de sobressalto, a viu de fato: morena, bonita, sabida da vida, da dela, da dele, da sua, da dos outros. ela, de seu meio salto, olhou-o de baixo e perguntou o que mais queria. o que mais quero é saber sua graça, flor de maria. meu nome, senhor, é maria joana, mas pode me chamar de joaninha. da distância, ele sentiu o perfume da flor que resplandecia. pegou-lhe a mão, encostou os lábios mais gratuitos que famintos e partiu. primeiro passo dado para a desgraça ao seu lado. acreditou na vidente, cego evidentemente. entregou o que de melhor tinha ao copo d’água com açúcar naquele dia. pela pressa que teve de dar amor a quem não lhe cabia. pela urgência de amar Joaninha.

nuvens

como os corpos
nuvens mudam de humor
brancas carregam paz
cinzas levam sua dor

como os corpos
nuvens têm formas
atravessam continentes
em flocos de neve

como os corpos
nuvens abrigam paixões
em formato de animais
e amam feito tais

como os corpos
nuvens viram flor
e a chuva não é o choro
é só o banho de amor

* Nuvens é música de Mauricio Nogueira e letra de Lívia Gusmão

só pra se misturar

máquinas espalham luzes,
no quarto escuro lotado,
revelam ilícitos copos
corpos em ondulação.
a única gota de álcool
na minha boca sua
e o gosto de limonada
você prova na garrafa
que seguro gelada e derrete
nas minhas mãos suadas
derrama outra gota sozinha
que desce e abre sua trilha,
só pra se misturar
às minhas mordidas famintas…
ah… sua saliva em outro lugar…

a noite, pela cintura
a noite, faz sua parte
a noite, sua na nuca
a noite, ela me arde