Poeminhas

fio da navalha

velo o que em mim carrego
sem nome ou glória a lacerar.
me abre o ventre com o gládio
e das entranhas há de escapar
o que largaste dentro de mim,
sem saber, teu grande prêmio
em moeda de caridade
castigo ou recompensa.
gero a tua natureza morta
no colo bastardo e cálido,
sobrevivente do fio da navalha.
jaz aqui teu degenerado.

as parasitas

~ trecho retirado da antologia de pablo neruda ~

as aspas são carrapatos
que se agarram às frases.
enfraquecem os sentidos,
parasitam desejos.
vêm em duas metades
de meios sorrisos.
meninas magras que maldizem
sinceras rechonchudas palavras.
aspas, retratos da má vontade
de quem não quer se fazer entender.
abrem-se em bandos e, de teimosas,
gotejam no passeio de inverno.
desgraça alheia que, de convincentes,
tomei para mim.

TÃO INCOMPREENSÍVEL QUANTO AMOR COM ASPAS.

não-eu

hoje aprendi que sou forte
mas que pra tudo tem limite.
entendi que aguento muita coisa
mas não coisa qualquer que me balize.
hoje sei que posso rir mais baixo
e chorar escondida também.
não ser eu vai doer em mim
como um membro que amputei.
mas quem perde mais de mim
estancado no eu é você.

prato cheio

com esse todo tanto de querer que tenho,
nada mais adianta do amor voltar.
para cada minuto de café e sossego,
tantos infernos você me fez atravessar.
numa balança injusta onde o peso maior é o da culpa
do insucesso de não fazer o amor vingar,
eu fico com o prato cheio da angústia
de saber que peso maior carrego comigo,
no querer refazer o que por dúvida foi desfeito
e sucumbiu na urgência de querer amar.

gabriel

sobrevoo seu andar arrastado,
os passos que dá sem vida.
diz que não sabe aonde vai,
mas sabe que não vai sozinho.
segura firme a minha mão
e vem voar comigo!
uma grande festa,
a eterna alegria.
seu choro é pra me banhar.
seu sorriso pra me amantar.
daqui eu aprendo contigo…
o amor é a única força
que eu preciso.
o vento sabe aonde nos levar,
temos o tempo que o mundo nos dá.
flutua comigo na ventania…
tira o nó, traz também sua voz
que um anjo espera o outro
pra cantar.

não basta ser bom

quando eu me dei conta de que escrever não era um simples exercício ou válvula de escape, meu mundo chacoalhou. um terremoto que abalou as estruturas de uma blogueira que viu outros blogueiros construírem suas carreiras como escritores. não basta colocar a vírgula no lugar certo. não, poesia não é isso. até porque licença poética é justamente poder colocar a vírgula onde bem se quiser. eu queria simplesmente não usar a vírgula.

dez anos se passaram até que eu me desse conta disso. muito pior: me liguei de que poesia não é para ser lida na internet, em um simples post de blog, como uma lista de efeitos colaterais contidos na bula de rivotril. não, algo estava muito errado. e a vírgula sempre no maldito lugar certo.

“escrever bem não basta para se ter sucesso e você é uma excelente escritora”, eu li. desse jeito eu despenquei mais alguns degraus e dei com a cabeça na quina do sonho. eu dormi dez anos achando que seria escritora um dia e que um bom começo seria um blog. um bom começo para ser analista de mídias sociais talvez. não basta ser bom escritor. menos ainda um blogueiro com zil cliques por mês.

“vai dar uma volta no mundo lá fora”, eu ouvi. eu fui. encontrei um estúdio que passou a abrigar meus sentimentos digitais. depois dois estúdios. depois uma sala com velas aromáticas para iluminar um clipe por semana. eu vi que escrever bem não bastava. não era suficiente acumular centos de poemas em páginas sempre encontradas e, por isso, nunca procuradas. eis que vejo brilhar a chave da porta certa, a porta secreta. quando abri, havia apenas um bilhete. manuscrito numa tira de papel rasgada nas extremidades, o início do fim do meu pesadelo:

“não existe segredo escrito. existe segredo lido.”

eu sei o porquê

eu sei que te amo quando sua voz percorre
e me diz que me quer com urgência.
pelo calor de seus lábios quando me aquecem
nas noites quentes em que sinto frio.

eu sei que te amo pelo arrepio que me causa
quando estamos em completo desatino.
pelo silêncio de ternura quando me olha
nessa tanta saudade em dor latente.

eu sei que te amo pelas horas difíceis juntos
quando a distância é o insuportável cotidiano.
por ter a exata noção do que sente,
mesmo que não saiba onde está exatamente.

eu sei que te amo em verdade ímpar
sem plural sem sinônimo sem homônimo.
porque não há beleza maior
do que o seu simples ofegar.

eu sei que te amo porque enfim encontrei
a intensidade que tenho do lado de lá.
porque nessa vida me perdi de mim
para me encontrar em você.

eu sei que te amo porque a entrega incessante
é presente constante, num agora de hoje em diante.
porque passo a vida a dizer que sei que te amo
e agora você sabe o porquê.

flores de mimos

eis a melancolia humana:
lamentar a morte dos vivos.
rolam, na face que não veja,
as lágrimas que correm o risco.

o que se condena com ferro,
em brasa, na pele, o castigo.
em outro peito, acalenta
o amar por tempos banido.

não me coloque em berlinda
por carregá-lo comigo.
a cada passo que dou,
germinam flores de mimos.

assim, em campos cinzentos,
floresço por todo o caminho
com a chaga aberta em aromas
de amor pleno e sozinho.