Poeminhas

nova

uma surpresa, eu à espera
do que não escolhi pra mim
uma tristeza, saída errada
a minha vida está por vir

se o erro é o movimento certo
de quem não sabe aonde ir
saiba, não há destino escrito
pra quem planeja como fugir

quando a hora passa, já é tarde
não espero mais a decisão
na nova estrada, não questiono
é cedo demais pra dizer não

solar

sigo feliz de um sorriso brando
de amar os beijos da canção
e de mãos dadas com o sol
cravei bandeira no coração

num abraço longe de ciranda
nino sua alegria de menino
faço do seu, o meu caminho
dos seus olhos, estrada em clarão

feliz feliz da vida sua e minha
sei que tudo é certo e bom
faço da lei do bem-querer
a nossa desobrigação

papel de prata

fascínio de porcos pavões e homens
que enche barrigadas de olhos gordos
fina camada de brilho que mata
e faz pensar prata o papel alumínio.

repeteco

enquanto falam a mesma frase que leram no livro.
enquanto cantam as mesmas músicas sem gingo.
enquanto assistem aos mesmos programas de domingo.
enquanto a vida rotaciona o mesmo disco.

simples demais

queria uma coisa simples, muito simples.
porque o amor é simples, mas não é comum encontrá-lo por aí.

queria ser o que fomos um dia, quando pouco se dizia.
quando pouco se fazia questão de entender.

queria paz e sossego, simplicidade e um pouco de poesia,
enquanto você fotografava a vida em silêncio.

quem sabe o tempo nos ajude, assim como um pouco de calma
e tranquilidade. um pouco sem guerra, sem agressão.

um pouco de amor e sexo à flor da pele banhado em saudade.
um pouco de tudo que a gente já sabe pra perder o medo da desilusão.

pra não pensar

 

a partir de hoje, minha única dificuldade
é decidir o que é melhor pra mim.
e isso eu devo somente a você,
que transformou minha vida
nessa coisa esquisita,
sem pé nem cabeça
e mil pesadelos medonhos
em que eu te vejo voltar.

se meu esforço pra não pensar é imenso,
o que pode estar forçando o desejo
é sua vontade de revirar o tempo,
esquecer os percalços,
passar por cima dos obstáculos
que o fizeram recuar.

mas, se quer saber o que quero
esqueça seu erro e olhe pra trás.
a estrada que caminhou, estou nela
no ponto em que me deixou.
se quer saber o que quero,
devolva-se
e eu digo que não mudou.

fio da meada

porque me sinto doente.
porque me sinto perdida.
porque estou tão nervosa.
porque não estou produtiva.
porque me sinto cansada.
porque estou exaurida.
porque perdi o fio da meada.
porque não lamento um só dia.
porque não me falta coragem.
porque sou igual e sou ímpar.
porque assumo minha parte.
porque não sou perda de vida.
porque dela nada se leva.
porque ela me leva vencida.
porque se hoje morro em combate
amanhã nasço com o dia.

farpa

alguém me arranque
essa farpa.
tirei os sapatos para sentir
a grama.
agora não posso mais
andar.

ela lhe cai bem

a morte não perdoa os fracos de fé,
mas não isenta os que trabalham também.
a morte zombou da sua cara na sinagoga
e pegou sua alma como refém.
a morte colocou sua reputação em xeque
quando mostrou que você é fraco
e que ela é a reencarnação do bem.
agora me diz:
você escolheu a morte porque
ela é boa demais para si
ou porque ela lhe cai bem?

postulado

eu já disse e repito:
vivo para escrever
e escrevo porque vivo.
sobreviver é o que faço
enquanto nada tenho escrito.

rubra revolta

em protesto ao dia que não chegou, hoje eu passei batom.

era um daqueles dias esperados. daqueles que se espera com certo desespero. o dia não chegou e eu, em protesto, assumi o vermelho. não gosto da cor da minha boca porque é rubra demais. o inferno na cara. hoje resolvi que não disfarçaria. sangrando estamos, eu e ela.

pobres famintos

pobres famintos
que subestimam migalhas
e nem sabem do banquete,
que nunca viram restos,
da fartura, nem cheiro sentem.

pobres famintos
só veem sombras e sobras
onde a fogueira acende;
cuja maior dor não é fome,
mas a cegueira latente.

pobres famintos
em trapos rotos de seda
repousam corpos e traumas
e esperam o pão e a esmola.
pobres famintos morrem de alma.

casa de partir

 

não, eu não estou mais
em nossa casa a chorar.
deixei tudo que pesava
e não dava pra levar.
cama por arrumar,
louça por lavar,
corpo por amar.
e o amor, de grande,
me convenceu a partir.
não, eu não trouxe nada
que pudesse te lembrar
e nem assim consegui
deixar-te para trás.
olha, a chuva vem torrente.
e eu já estou pronta pra saltar.
agora eu já me molhei.
agora é esperar secar.

o fim dos meios

não acredito nos meios.
saia da superfície.
não quero nada pela metade.
meio-amor não existe.
não acredito em passado,
castigo que foi embora.
as águas que já rolaram
não bebo depois da hora.
se o futuro é o que busca,
é bem longe do agora.
se só quer deixar sua marca,
arranco minha pele fora.

pra ficar

Saudades da laranja partida em margarida.

se eu somar
os destroços,
colar nossos
pedaços, só
o amor vai
sobrar.
nem a dor
sombra
vai deixar.
um dia nada
há de passar.

*PARA O HOMEM QUE MAIS AMEI NA VIDA

cortes

eu sofro.
eu choro.
eu sinto dor.
eu espero
uma resposta
definitiva.
uma palavra
curta e grossa
corajosa.
um punhal
que venha forte.
esse estilete
já me cortou
muitos filetes.

fantasma

de todas as partes do meu corpo,
você gostava mais do meu estômago.
dizia que ele era forte
por conta da vida.
desde o último encontro,
sinto sua falta,
mas sinto aqui dentro
um espaço oco.
você levou embora meu estômago.
você levou justo ele,
que suportava minha dor.
disse que precisava de um reforço.
eu concordei.
depois disso,
me sobraram as dores
da ausência.
e agora já não sei
se a dor que sinto é mesmo minha,
ou se ela é o fantasma da sua.

fio da navalha

velo o que em mim carrego
sem nome ou glória a lacerar.
me abre o ventre com o gládio
e das entranhas há de escapar
o que largaste dentro de mim,
sem saber, teu grande prêmio
em moeda de caridade
castigo ou recompensa.
gero a tua natureza morta
no colo bastardo e cálido,
sobrevivente do fio da navalha.
jaz aqui teu degenerado.

para o que escrevo

para mim, o silêncio é imprescindível.
para um pouco de silêncio,
a solidão.

portas trancadas obstruem ideias,
então é melhor que as passagens estejam
abertas.

um tanto de frio lá fora.
uma palavra branda que chama
aqui dentro.

para o que escrevo,
a chama, o frio
e o silêncio.

as parasitas

~ trecho retirado da antologia de pablo neruda ~

as aspas são carrapatos
que se agarram às frases.
enfraquecem os sentidos,
parasitam desejos.
vêm em duas metades
de meios sorrisos.
meninas magras que maldizem
sinceras rechonchudas palavras.
aspas, retratos da má vontade
de quem não quer se fazer entender.
abrem-se em bandos e, de teimosas,
gotejam no passeio de inverno.
desgraça alheia que, de convincentes,
tomei para mim.

TÃO INCOMPREENSÍVEL QUANTO AMOR COM ASPAS.