Operário da Lua

Operário. Cândido Portinari.

A luz do operário
Apática aos movimentos do vento
Brilha dias numa cor
Pra lembrar seu sofrimento.

Minha boca se abre sonolenta.
O grito do apito da fábrica,
esperneando aos meus ouvidos preguiçosos…
Nada a fazer, espero.
Escrevo.
Espero.
Uma luz débil ilumina o pátio.
Todos cinzas nas cinzas das chaminés.
Café magro de queimar a língua.
Homens mutilados
Ternos e gravatas
Multi-lados da derrocada.

Grito.
É o apito.
A comida no alumínio
e seu gosto de ferro amargo na boca.
De sobremesa, o bilhar com as formigas operárias
que, como eu, não vêem o sol.
De luz, apenas o fogo das máquinas, temperando meu cansaço.

Mais um grito.
Mas o apito está longe de tocar.
Foi meu amigo, perdendo a vida a fio.
Foi meu amigo, demitido.

E eu?
E eu, meu Deus?
Eu não.
Ainda não.
Eu só perdi um dedo
de cada mão.
E uma parte da vida.
Quando caírem os dedos,
nariz e orelha,
ganharei meu prêmio
Emérito Operário Escravo.

Grita! Grita! Grita!
Gritou.
Vou embora.
Talvez eu não perca nada aqui.
Talvez eu perca na rua.
Talvez eu chegue à Lua.


Parece que o texto acima não tem nada a ver, mas tem. E lá vai a pergunta:

Como motivar esse operário?
Detalhe: em nenhum momento ele fez menção a salário baixo.

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