minha dose

lamento, meu amor,
mas é minha essa cicuta.
dá aqui minha dose
que é pra me apagar por essa noite,
talvez na próxima e nunca mais.
não tô afim de pagar pra ver
o que está pra acontecer.
essa vida é feita de caminhos
traçados mal cruzados e alinhavados
que, com o tempo, soltam minha roupa
e se penduram feito botões de plástico.
lamento, meu amor,
mas aqui não são só as flores
que contam mentiras de algodão.
aqui até os azulejos conspiram
contra os velhos nus diante do espelho.
nessa espelunca, curvam-se tapetes,
mas é só um jeito fácil pra te derrubar.
e eu não tô afim de pagar pra ver
a hora de cada máscara cair
e olhar de novo aquelas caras feias
que vejo em noites de pesadelo.
meu bem, me dá a cicuta
que é hora de eu dormir.

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