aos nossos pais

não há o que se fazer.
sou assim,
do jeito que você me vê
e nem vai adiantar
tentar mostrar que não sou assim.
não sou perfeita.
é isso o que você vê?
me vê de cabelos azuis,
olhos louros
e boca pintada de esmalte?
é assim que sou.
me vê revoltada, matando americanos?
é assim que sou.
e você quer que eu seja como?
uma coisinha magra e cabeçuda,
brigando com a cabaça
porque virou moda.
quer que eu seja
uma inútil funcionária pública
que se engasga com café
e culpa o governador por ser ignorante.
quer que eu assista à tv aos domingos
rindo de minha própria desgraça
estampada em cadeia nacional.
você me vê. como?
como sou.
e isso o aflige não porque sou diferente.
sou você vivendo bem, vivendo mal.
amando, rasgando
dilacerando minha carne
de dor e de prazer.
eu sou você.
sou o que você gostaria de ser.
gritando e esbravejando contra o chefe,
cuspindo na cara do médico que não quer atender,
enfiando o dedo na cara do professor incompetente.
e o que mais o aborrece
é que, justamente por eu ser assim,
o que você é por dentro e esconde
por achar marginal,
justamente por isso
venci e venço todos os dias
contra todos os prazos de validade,
mudando de casa e de cor,
conhecendo o amor.
vivendo.

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